Opinião
Bala�os e porrete
Desculpe-me a rudeza, amicíssimo e pacífico leitor, no entanto, dar-lhe-ei alguns fatos que merecem a sua e a minha reflexão: Como pode uma pessoa apanhar um tronco de madeira e bater em outra até rachar-lhe a cabeça? Que faz com que um torcedor fanático de um determinado time de futebol saque uma pistola e aloje seis balaços na testa de outro, cujo único pecado é o de torcer por um time contrário? Ou então, por que alguém arremessa uma pedra ao encontro do parabrisa de um veículo que trafega em uma rodovia? E, diletíssimo leitor, nem quero entrar na cabeça de alguém que, furtando um veículo, arrasta um garotinho, preso em uma cadeirinha, por centenas de metros, sem demonstrar nenhuma mortificação. Claro, concordo com você, caro leitor, e também reconheço que uma explicação para esses comportamentos aviltantes e indignos à condição humana não é único nem simples. Bem sei que grande parte desses fatos ocorre com o corpo do criminoso saturado de substâncias químicas, como álcool ou cocaína; esta explicação, porém, não basta. A ausência de um policiamento mais ostensivo pode contribuir, no entanto, é insuficiente para explicar. Podemos, gentil leitor, buscar justificativas na exclusão social. De acordo com os defensores dessa tese, se alguém é excluído do sistema social e econômico em que vive, é perfeitamente natural que o mesmo emborque uma garrafa de cachaça e saia por aí a assaltar e matar. Não compartilho dessa ideia. Se essa argumentação fosse correta, a Índia ? que possui uma massa enorme de excluídos ? seria um dos países mais violentos do mundo e sabemos que tal fato não encontra guarida na realidade. Com certeza que esses ingredientes juntos podem causar violência; no entanto ? e você, leitor sensível que é, concordará ?, a maior causa da violência é a incapacidade de nos enxergarmos no outro. Você, amigo leitor, por acaso bateria com um tronco na cabeça de um sujeito que é absolutamente igual a você? Eu, por exemplo, se estiver em um estádio de futebol e vir que o meu vizinho é uma réplica de mim mesmo, eu o cobriria de afagos e não de balaços. Esta é a dolorosa verdade: a base de toda essa violência reside na incapacidade de nos vermos refletidos no outro. Se, como por um ato de ilusionismo ótico, nos enxergás- semos no próximo, a violência, como por encanto, se evapo- raria. (*) É engenheiro da Casal.