Opinião
Intervalo da consci�ncia
O que temos como legado desses tempos em que vivemos não é fácil de descrever ou diagnosticar com a simplicidade tão comum aos que se cercam de certezas absolutas, inapeláveis, definitivas. O correto, acredito, é a compreensão de um Brasil cheio de contradições, por se fazer na maioria das coisas, em um mundo em profunda mutação científica e tecnológica, em meio a uma crise econômica mundial profunda onde paradigmas tidos como irrefutáveis desmoronam diariamente. Tudo isso, produz uma crise multilateral que atinge os conceitos sobre a economia, a falência dos modelos das instituições internacionais surgidas após a Segunda Guerra Mundial. Mas não fica somente restrita às bases objetivas das sociedades contemporâneas ? às relações de produção, ao mercado, ao comércio internacional etc. O que emerge, igualmente, é uma crise moral e nas estruturas sociais, de caráter multilateral, ou seja, em várias direções. E aqui não vai uma observação de conteúdo falso moralista ou puritana, mas a constatação do problema da moral sob o ângulo da cidadania e da coisa pública. O que se apresenta é uma falência dos valores que compunham essa determinada época sob a égide do capital hegemônico, transformado em Deus, no Alfa e no Ômega das sociedades, como aquele antigo remédio, a ?Maravilha Curativa?, a alquimia, a mística, para todos os males da saúde. A ruína concreta de um determinado tipo de modelo das primeiras experiências socialistas, também deixou bem mais livre esse capital que migrou em sua maioria para a especulação delirante, com as suas filosofias justificadoras, promovendo uma era que parecia longa, de uma orgia sem data para terminar. Mas que findou ruidosamente em 2008, com a quebradeira em série de bancos de investimentos, fraudulentos e ocos, que sustentavam a maioria das nações do primeiro mundo, assim como um edifício fincado em um lodaçal profundo. O Brasil foi contaminado, em muitos aspectos, por esses falsos conceitos globais, artificiais, segregacionistas. No entanto, assim como outras nações emergentes, o País possui condições de alcançar a outra margem do rio, bem mais avançado econômica e socialmente. Revelando outras alternativas, inclusive para a humanidade, desde que resista como Estado nacional soberano, promova reestruturação diferenciada da sociedade, em contraste às ruínas que aí se encontram, no que é uma espécie de intervalo da inteligência e da consciência. (*) É advogado.