Opinião
Trema - tremenda injusti�a
Com presumida licença dos leitores mais sensíveis, contarei uma anedota. Embora clássica, a piada certamente desagradará ouvidos mais refinados. Nela se contém termo banido pela aristocracia literária, mas essencial ao escopo da história. Nos tempos em que ainda existia trem de passageiros, um cidadão viajava entre São Paulo e Rio de Janeiro. Ao seu lado, no vagão de primeira classe, um sujeito franzino debruçado sobre pesado livro, fazendo constantes anotações à margem das páginas. Depois de algum tempo, tentando puxar conversa, nosso viajante pergunta: ?O senhor também salta em Guaratinguetá??. O vizinho, responde com uma observação: ?Desculpe, mas o nome é Guaratingüetá?. Nascido e criado na cidade, o homem insiste: ?Correto é Guaratinguetá?. No meio da controvérsia, aparece o cobrador. Antes de pedir as passagens, ele se dirige ao magrela: ?Bom dia dr. Ruy. É uma honra, tê-lo conosco?. O sujeito cai em si: ?O senhor é Ruy Barbosa??. Resposta afirmativa. Restou ao desconsolado viajante uma exclamação: ?Cagüei-me todo!?. Com perdão da má palavra, essa piada monta-se numa anomalia ortográfica: a pronúncia da letra U em combinações onde, normalmente é muda. Isso acontece quando a letra se conjuga ao G ou ao Q: em aqui, ela é muda, já em tranqüilo é pronunciada. Para marcar a diferença na linguagem escrita, utilizávamos como diacrítico o trema. Graças a ele, o vizinho do grande Ruy teria evitado o vexame escatológico; bastaria, para tanto ver a palavra escrita no próprio frontispício da estação ferroviária. Infelizmente (ou felizmente para os leitores mais delicados) a pilhéria já não pode ? em linguagem escrita ? ser narrada com a brevidade característica das anedotas. É que nossos lingüistas (transformados em linguistas) criaram ojeriza pelo velho trema. Assim, sem dó nem piedade, exterminaram os eficientes e esclarecedores pontos gêmeos, varrendo-os de nosso universo gráfico. Rogo paciência aos doutores da língua; invoco o cânone de que perguntar não ofende e indago: não seria melhor acabar com o estéril casamento do Q com o U? Robusta e dotada de bela cauda nossa décima sétima letra bem que poderia virar-se sozinha. De sua parte, o pobre U ganharia dignidade; deixando de ser impronunciável: triste vogal que não voga; passaria a somente entrar na palavra, quando tivesse voz e voto. Tudo ficaria mais fácil. Dispensaríamos o trema e passaríamos a escrever quando, qieto e tranqilo. (*) Advogado e escritor, é ministro aposentado do STF.