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As ventanias de al�m-mar

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As ventanias que em 1808 trouxeram das margens do Tejo, em Lisboa, as caravelas com a corte portuguesa, dali escorraçadas pela chegada das tropas de Napoleão, embora tenham trazido uma leva enorme de come-e-dormes e parasitas embutidos na nobreza portuguesa, nos legaram uma obra literária que ocupa os primeiros lugares em vendagens no Brasil há mais de um ano. O livro ?1808? de Laurentino Gomes fala de nosso passado para podermos entender melhor o nosso presente e talvez, com sorte, subsídios para um futuro melhor. A obra mostra o que era Portugal de então: o recanto mais atrasado da Europa. Onde o fervor religioso exacerbadíssimo associado ao abusivo uso do aparato e das poucas riquezas nacionais unicamente em proveito da nobreza e seus acólitos, impedia que as luzes e as ideias que iluminavam o restante do continente desembarcassem em terras lusitanas. Mostra Laurentino que naquela época, o número de pessoas abastadas que vivia unicamente à sombra do poder e sem trabalhar, já era intolerável e faz comparações com outros países, inclusive com a jovem nação norte-americana, que na ocasião tinha 10% dos funcionários públicos em comparação a Portugal. Alguns episódios recentes tanto a nível nacional quanto regional, mostram que o espírito de aproveitar o máximo as proximidades do poder para auferir privilégios, sejam o abuso de autoridade, sejam (principalmente) pecuniários, continuam a fazer parte dos expedientes usados continuamente por grande parte da classe que controla as instituições nacionais. O episódio de Curitiba, quando um jovem deputado alcoolizado, cuja carteira de motorista estava suspensa por excesso de infrações, causou violento acidente de trânsito que levou a óbito dois jovens inocentes é mais uma do abuso de poder, cujo espírito de corpo e de porco insiste em tentar blindá-lo das sanções penais. Na contínua e interminável farra do Congresso Nacional, a última é a do desatento presidente do Senado, senador José Sarney, milionário, proprietário de inúmeros imóveis nababescos, embolsa auxílio moradia em Brasília onde, inclusive, além de proprietário, ocupa imóveis monumentais gratuitamente. Em Alagoas, as próximas vagas a se preencher no Tribunal de Contas vão sinalizar se permanecem em nosso Estado os mesmos arcaicos ventos que trouxeram as caravelas portuguesas, ou se além de balançar os coqueiros, eles também arejam o governo do Estado. (*) É médico e professor da Uncisal.

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