Opinião
O exemplo de Pernambuco
?Coronel Padilha deu ordem ao cambiteiro: não dá cana a passageiro nem também a morador?. Assim canta o figural do Guerreiro das Alagoas. ?Doutor Jorginho, isso é uma derrota! Uma cana P-O-J se a moça pedir eu dou?. Assim pontifica Lia de Itamaracá, em sua ciranda. Duas atitudes aparentemente ingênuas, mas de importante significado. A primeira, obediente: o dono do engenho, com seu título honorífico, deu uma ordem, não se discute. A segunda, já sugere uma tomada de consciência crítica: a condição de herdeiro, proprietário da gleba e o título de doutor não lhe protegem da contraposição. O interdiscurso presente na fala da Lia, com suas implicações sociais, políticas e ideológicas, faz vislumbrar como as identidades são historicamente elaboradas. Será essa uma pista que Pernambuco nos dá? Minha pergunta é consequência do subtítulo ?O Exemplo de Pernambuco?, inserido na matéria ?Acabou a Brincadeira? (GA, 26.04.09), onde se evidenciam as lamentáveis condições em que se encontram nossas danças e folguedos populares: ?Agonizando seus últimos suspiros?, segundo o repórter. Enquanto, no Estado vizinho, mercê de políticas públicas consistentes, seus mestres e brincantes atuam em condições bem mais favoráveis. Como se complementando nossos artigos, aqui na GA, no recente 05.03 ou no longínquo 16.08.98, o texto citado evidencia que através do Fundo de Incentivo, e mediante editais públicos, várias ações são realizadas: festivais, circulação, mostras, celebrações, edição de livros, sites, revistas, fomento e atividades de valorização de identidades étnicas. Do que se consigna, cinco situações nos saltam aos olhos: a afirmativa de que o grande patrimônio de Pernambuco é sua organização social; a informação de que o segmento da cultura popular possui fórum próprio, propiciando a efetivação de um programa de cogestão entre Estado e sociedade civil; a valorização de cursos sobre a economia da cultura; e a cultura, no âmbito do governo, assumindo um papel de destaque, estruturador. E tudo isso, resultante de todo um processo de luta, de embate, mas não necessariamente de ruptura. E vemos o quanto os de Pernambuco têm de propositivos, evidenciando que somos essencialmente reativos. E cada frase vai pondo em xeque nossas inconsistências, como se Alberto Einstein estivesse nos puxando as orelhas ao afirmar que nosso grande engano é ?fazer sempre as mesmas coisas, esperando resultados diferentes?. (*) É professor.