Opinião
D�vida shakespeariana
Repito sem orgulho ou mágoas que cresci entre loucos. É que aos doze anos fui morar no mesmo local onde meu pai instalou sua clínica psiquiátrica, um pretensioso, não obstante ocioso, solar cinquentenário adquirido a duras penas. Apesar do algo insólito da situação ? única em Alagoas, até pelo fato de haver poucos hospitais do gênero ? acho que a convivência nada teve de desastroso nas nossas cabeças. Na pior das hipóteses, ficaria mais ou menos comprovado que loucura não é contagiosa, não se transmite através de afetos. Sim, porque durante algum tempo os pacientes usavam a sala de refeições da família e dividiam conosco o mesmo andar dos nossos quartos. Do mesmo modo, adoecer mentalmente é uma possibilidade real na vida de qualquer um, não havendo vacinas para isso. Nem mesmo a convivência íntima e prolongada com portadores. É o caso do depressivo poeta Ferreira Gullar. Quem teve a oportunidade de fixar o olhar na capa da revista Época desta semana talvez possa dizer que viu uma mistura de desalento, de nojo, decepção e perplexidade num fundo de melancolia e derrota. De fato, sua imagem física tem tudo a ver com figuras lendárias de velhos feiticeiros de tempos perdidos que anteviram a derrocada de suas civilizações. Gullar só não é conformado. Intelectual que dispensa apresentações, militante de esquerda sem peias, ele é capa de revista por conta de dois filhos esquizofrênicos. As angústias do intelectual atormentado certamente multiplicam-se exponencialmente. De repente, o poeta incorpora a voz solitária que ousa se insurgir contra o esquerdismo que tomou conta da vigente assistência psiquiátrica, e que é diretamente responsável por centenas de mortes por abandono ou suicídio ocorridos nos últimos anos, inclusive em Alagoas. É o preço da morte programada do hospital psiquiátrico. A shakespeariana ?internar ou não internar?, remete a uma frase do grande Luiz Décourt, lendário professor da USP, que definiu, em outro contexto perfeitamente adaptável à psiquiatria: ?A cirurgia não pode viver da desilusão da clínica?. Aliás, a matéria de Época surpreendeu. Com efeito, num Estado onde se comemora com fogos e balões quando algum médico resolve se consagrar à especialidade e um dirigente sindical tripudia ao referir-se ao especialista como ?um simples psiquiatra?, não deixa de ser intrigante a positiva avaliação da assistência psiquiátrica caeté. Pena que ninguém saiba disso por aqui. (*) É médico e professor da Ufal.