Opinião
Exemplo ousado
Recentemente, a Fábrica da Pedra comemorou 95 anos de fundação e anunciou a disposição de, em 2014, festejar em grande estilo seu centenário. Além do justificado orgulho dos que compõem esse empreendimento, a data em tela e sua perspectiva ensejam, menos pela idade provecta e mais pelo conteúdo de sua história, uma série de reflexões aos alagoanos. A bem da verdade, o fabricado na Pedra de hoje é bem distinto do confeccionado na Pedra do tempo de Delmiro, há 19 lustros, embora a matéria-prima siga sendo a mesma: o algodão. Nos tempos pretéritos, quando da instalação heróica da grande fábrica em pleno Sertão, os fios oriundos da camada de proteção da semente do algodoeiro transformavam-se em linhas e não em tecidos, como há muitas décadas, se concentra a produção fabril dos teares da Fábrica da Pedra, que se chamava Companhia Fabril Mercantil. Memorável epopéia, a saga da atual Fábrica da Pedra merece mais atenções e estudos em Alagoas. Experiência sem par no Brasil de seu tempo, seja pelo pioneirismo em muitos segmentos, como pelo trágico desenrolar de sua existência, ainda está a cobrar o devido reconhecimento e, mais que isso, se nos coloca, vivas e instigantes, uma série de interrogações à procura de respostas. Oásis de prosperidade industrial, há 95 anos, no árido Sertão alagoano, sua sobrevivência exige-nos, contemporaneamente, ousadia semelhante a que caracterizou o seu construtor (e mártir) Delmiro Augusto da Cruz Gouveia. O que fazer, hoje, para que essa experiência hercúlea possa ser entendida e, a partir daí, multiplicada em outros projetos de porte revolucionário, como foi aquele dos idos de 1914, inovando, gerando empregos e multiplicando renda no interior alagoano? A Alagoas interessa não apenas lembrar um passado de ousadia, mas ousar construir um futuro igualmente arrojado.