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Opinião

Esp�rito de porco

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O fato aconteceu recentemente em algum lugar do mundo, antes da Organização Mundial de Saúde divulgar que a carne de porco, cozida, não apresenta nenhum risco de contaminação pela gripe suína, hoje rebatizada de influenza ?A? (H1N1). Visando o controle urgente da pandemia da gripe, a ONU decreta o extermínio dos suínos: ?Em defesa da saúde pública mundial, decretamos, em caráter irreversível e sob pena de condenação aos infratores, o suinocídio universal?. A notícia se espalhou como plumas ao vento. A medida surte um efeito colateral na suinocultura. O pânico contagia em cadeia produtiva. Os grandes suinocultores, através de suas confederações, homologam uma representação judicial contra a medida. A indústria de embutidos bota a boca no trombone com toda a gula capitalista que lhe é característica. Os zootecnistas lamentam a perda de um grande ?cliente?. Os pequenos criadores, desavisados, recorrem à Sociedade Mundial de Proteção aos Animais. Os restaurantes e bodegas especializados em feijoada fecham para o almoço. Os consumidores suinólogos, dados aos prazeres do pernil e do torresmo, deflagram greve de fome. Os criadores domésticos, idólatras, pensando na sobrevivência e fazendo das tripas coração, suplicam a São Francisco de Assis: ?Livrai do sacrifício os nossos animais, amém!?. No Brasil, toda a torcida do Palmeira aprova, em plebiscito, a extinção da suinocidade do clube, migrando para o Peixe, o Urubu e Leão do Norte. O fã-clube do grupo musical Orelha de Porco danifica os discos da banda. Os vegetarianos ? de cima de sua realeza imunológica ? aplaudem a medida e levam as mãos aos céus. Diante de toda aquela suinofernália, surge Rafael Arcanjo, que sofre de surtos paranóicos. Com seus 50 anos, casado, pai de cinco filhos de mães diferentes, usando máscara de proteção, chega à igreja para se confessar com o vigário: ? Bem-vindo, Arcanjo, o que tens a confessar? ? Padre, quero pedir perdão... ? Jesus é misericordioso, meu filho ? Interrompeu o padre. ? Não é com Ele. Eu quero pedir perdão à Nossa Senhora de Fátima. Peço a ela que me redima junto à minha mãe, minha mulher e irmãs, ex-mulheres, minhas vizinhas, minha médica, colegas de trabalho e todas as benditas mulheres com as quais me relacionei... ? Que fizestes, filho de Deus? Indagou o padre, ansioso. ? É que eu, meu bom padre, sou porco chauvinista!?. (*) É publicitário.

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