Opinião
Chuva e trag�dia
Indiscutivelmente, Alagoas está passando por dias fartos em chuvas. Mas isso não é novidade, muito menos nesta época do ano, onde o inverno tropical, impreterivelmente, marca sua presença. Desde o início do mês passado, sucessivas pancadas d?água tem causado vários prejuízos e até vítimas fatais. Mas a natureza não pode ser considerada a vilã nessa tragédia. A natureza não nos tem alterado sua rotina. Nós, os humanos, seguimos desatentos ao clima e temos sofrido mais do que deveríamos sofrer; na verdade deveríamos ser capazes de nada sofrer frente à normalidade das alterações climáticas, pois a vida nos tem ensinado, séculos a fio, lições preciosas que teimamos em desconhecer ou desaprender. Dentre os nossos pecados, muitos dizem respeito aos poderes públicos, pois a ordenação do uso dos espaços urbanos e rurais tem sido um item historicamente relegado. Assim, sob a leniência da autoridade pública, barreiras, ravinas (nossas populares ?grotas?), margens de rios e lagoas têm sido inapelavelmente desmatadas e povoadas ao arrepio da ordenação legal existente e em nítida provocação à natureza. Quando caem as chuvas, as águas seguem seus caminhos naturais de acumulação e escoamento. Há séculos a engenharia e o planejamento do uso do solo criaram soluções para a convivência humana frente à natureza. Há apenas três décadas, Maceió já ousou neste sentido com a construção do chamado Dique Estrada, quando as tragédias cíclicas dos ?flagelados? das margens da Lagoa Mundaú foram então eliminadas (hoje tendem a voltar pela ocupação de áreas impróprias para a habitação na área antes salvaguardada). Mas, sem políticas consequentes e continuadas, a cada mudança climática, uma pesada conta nos é apresentada. Infelizmente, uma conta inexorável, inapelável, que nós mesmos a construímos dolorosa.