Opinião
| EDUARDO BOMFIM*
A notícia da queda do voo 447 da Air France que decolou do Rio de Janeiro em direção a Paris, caindo sobre o Oceano Atlântico entre o Brasil e a África, abalou e comoveu a opinião pública mundial. Mas a verdade é que outras tragédias de maior quantidade de vítimas aconteceram, inclusive, este ano. No entanto, não há algo que provoque maior consternamento, em qualquer lugar do planeta, do que um desastre aéreo. A grande pergunta que muitos fazem é porque exatamente os sinistros envolvendo os aviões? Muitos procuraram a resposta a essa interrogação comentando o episódio do voo 447. Entre as várias teorias, alguém disse que o ser humano admira, consciente ou inconscientemente, a façanha extraordinária de construir um objeto que pesa toneladas, este alçar voo como se fosse um grande pássaro da natureza e, em velocidade espetacular, encurtar em muitas horas grandes distâncias. E quando ele aproxima continentes separados por um infindável oceano, aí a consternação de uma queda, como a do 447, é proporcional ao feito de que ele é capaz. Alguns disseram que essa é a luta permanente do ser humano para superar as suas limitações através das invenções e descobertas em todas as áreas das ciências, construindo engenhos tecnológicos, desafiando incansavelmente a natureza, através dos tempos, por toda a sua existência na Terra, seja ela quanto for. Dificilmente existirá outra cena de um filme que expresse de maneira tão inspiradora essa epopeia como o início de ?2001: Uma Odisséia no Espaço?, de Stanley Kubrick, quando um homem das cavernas descobre que um osso de um animal pode ser uma ferramenta de trabalho. E quando o sacode para o alto em ritmo de câmera lenta, ele toma a forma de uma imensa nave espacial viajando pelas galáxias. Seria a saga humana, na busca da perfeição, enfrentado os elementos da natureza, que muitas vezes confronta-o e o derrota. Mas ele nunca desiste. Esse duelo interminável produziu belas páginas da literatura e poesia como aquelas nas quais Fernando Pessoa narra as aventuras das caravelas portuguesas, com os incontáveis naufrágios, escrevendo: ?Oh mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal ... para que fosses nosso, oh mar?. É o mesmo oceano, o mesmo Atlântico em que o 447 encontrou o imprevisto destino. Mas o homem, esse animal imperfeito e especial, continuará a sonhar e voar incansavelmente. (*) É advogado.