Opinião
O pav�o
O desgastado jargão de que o mundo dá muitas voltas e com elas muda posições que pareciam inabaláveis, altera posturas que antes pareciam intocáveis, comprova sua atualidade diariamente e apenas confirma, como ficou recentemente exposto na tragédia do Airbus da Air France, que alguns mudam para melhor e outros para pior, outros continuam na mesma. Foi o que os fatos mostraram em relação aos militares e aos políticos, representados neste lamentável episódio pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, que mesmo sendo ministro nunca arquiva os seus histriônicos pendores políticos. Enquanto os membros da Marinha e da FAB, encarregados de informar a imprensa e a comunidade sobre o que ocorria a cada dia em relação ao resgate de destroços e corpos, disponibilizavam informações coerentes, prudentes e equilibradas, o contrário ocorreu em relação ao dr. Jobim, que possuído pela antiga e avassaladora vaidade, pelo indisfarçável oportunismo, quis fazer do momento trágico mais um palco para as suas incontroláveis ambições políticas. Os militares brasileiros foram muito maltratados (alguns com razão) publicamente pelo que fizeram durante o regime de exceção; já políticos como o reverenciado dr. Jobim, dono de privilegiada inteligência, ex-presidente do Supremo, para o qual foi indicado por Fernando Henrique, teve a juridicidade de suas decisões questionadas por entidades como a OAB, o Conselho da Magistratura e muitos luminares do Direito pátrio, culminando com a sua interpelação, fato até então inédito na nossa história. Marcou ainda sua passagem no Supremo pelo longuíssimo engavetamento que deu a inúmeros processos e ainda mais polêmica foi a sua atuação como constituinte. A obra ?O Dia da Caça?, lançada esta semana em Maceió, de autoria do jornalista Joaldo Cavalcante, narra apenas um destes deploráveis episódios, que como não poderia deixar de ser, teve no então presidente da OAB, dr. José Areias Bulhões, o encaminhamento correto. A prática da democracia entre nós fez muito bem a alguns e não melhorou outros. Os militares, que durante os anos de chumbo pautavam as suas ações pela arrogância, pela pretensão e pela intolerância, têm mostrado a cada dia, principalmente nos momentos de crise, como na caso da Air France, que hoje primam pela prudência, pela conotação técnica e principalmente pela ética e pelo equilíbrio. Já a classe política que tem em Jobim uma súmula prototípica, vai no sentido inverso, a cada dia pior. (*) É médico e professor da Uncisal.