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Opinião

O legado de Champagnat

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Como muitos meninos da minha época, aprendi a ler e a dominar razoavelmente as ?quatro operações? aritméticas em casa, com a minha avó. Depois, entre os 6 e 17 anos esquentei as bancas do Colégio Marista, primeiro no ?velho casarão? da Rua do Macena, quando ainda se chamava Diocesano e a seguir no Farol, onde permanece. Sem falsa modéstia posso concluir que o colégio cresceu comigo. Por sinal, o dia 6 de junho é consagrado ao seu fundador, Marcelino Champagnat, um padre francês que, reza a lenda, teria superado suas limitações cognitivas com redobrado esforço e, sobretudo, contando com a irrestrita interferência pessoal de Nossa Senhora. A partir dessas conquistas, o garoto pobre e dedicado que a duras penas conseguiu ordenar-se seria tomado por verdadeira obsessão pelo ensino. Juntou a inexcedível devoção pela Virgem e criou a ordem dos Petits Fráres de Marie, os Irmãos Maristas. A ordem desde sempre se caracterizaria pelos votos de pobreza, obediência e castidade, não necessariamente nessa sequência. Espalhados pelo mundo, os maristas vieram para Alagoas no alvorecer do século 20 e nestes cem anos escreveram uma belíssima história. Foram dezenas de gerações que floresceram a partir da semente de Champagnat. Cada um saboreou a seu modo a experiência discente. No nosso caso (meu e do meu irmão), por exemplo, as idas ao colégio tinham um significado que iam além da aquisição de novos conhecimentos ou de reafirmação ao catolicismo familiar. Durante algum tempo isolados no bairro de Bebedouro, o casarão do Macena era a literal ampliação de horizontes físicos, o elo que nos conectava com ambientes mais liberalizantes. Prova de que havia vida inteligente, talvez até mais interessante, fora do nosso mundinho. Esta semana revivi a experiência de novamente sentar num banco Marista. É que parte do Congresso de Neurocirurgia, do qual participei, utilizou as excelentes dependências da PUC Paraná, gigantesca estrutura de ensino com mais de 50 cursos, dirigida pelos maristas. De fato, são impressionantes as instalações desse campus, que na verdade corresponde a apenas um quinto do total. Contudo, em meio ao deslumbramento, um episódio macularia minhas emoções. Convocado para discursar na cerimônia de instalação do conclave, o reitor da PUC, um irmão Marista, fez longas reflexões científicas. Certamente, padre Champagnat ficaria triste. É que em momento algum o reitor refere-se a Deus ou a Maria. (*) É médico e professor da Ufal.

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