Opinião
O grande amigo
A morte de Ósseas Cardoso suscita reminiscências e lembranças que invocam, necessariamente, episódios dramáticos da política alagoana. Entre eles, o impeachment do governador do Estado de que éramos, ele e eu, os dois únicos remanescentes. Fomos companheiros não só daquele momento denso, tenso e intenso de nossas vidas, uma vez que voltamos a nos encontrar anos depois, como deputados federais em Brasília. Ele continuou e persistiu na trajetória que escolheu, como um dos mais atuantes representantes alagoanos na Câmara Federal, numa época em que personagens como Ari Pitombo, Pereira Lúcio e Carlos Gomes de Barros também ilustravam a bancada de nosso Estado. Sua atuação vinha de longe. Tornou-se, obviamente contra a sua vontade, protagonista de uma era que nem ele nem os que a viveram poderiam esquecer, com o trágico massacre de sua família, incitado pelo poder autocrático que dominava o Estado. Foi bravo na oposição e, vencida essa fase negra de nossa história política, tornou-se, com a bravura de sempre e o destemor que marcou sua existência, líder do governo Arnon de Mello na Assembleia Legislativa. A condição de partidário do governo não abateu o seu ânimo, não arrefeceu sua coragem, nem amenizou sua combatividade, sincero e leal para com os amigos e inflexível diante dos adversários e dos inimigos que destino lhe impôs enfrentar. Como seus colegas de representação, passou pelo transe do regime militar, dos Atos Institucionais e das restrições a que o País se viu submetido desde 1964. Tornou-se um dos mais atuantes parlamentares de nosso Estado. A tal ponto que, como o mais votado no pleito proporcional, credenciou-se, por justo reconhecimento popular, a aspirar ao governo do Estado. Sofreu, então, o mais duro golpe de sua carreira e, seguramente, dos mais injustos de sua vida. No recrudescimento do radicalismo político que engolfou e entorpeceu o trágico fim do governo do marechal Costa e Silva, teve o mandato cassado e suspensos, por oito anos, seus direitos políticos, sem qualquer acusação. Voltou-se à vida privada e passou a representar, em Brasília, os interesses da agroindústria do açúcar de Alagoas. Na capital, era tão o mais conhecido do que durante o exercício de seus sucessivos mandatos. Contando com sua esposa Lilita, companheira de toda a vida, granjeou um vasto círculo de amizades e uma rede de solidariedade de que poucos desfrutaram. Sua existência fez dele uma personalidade entre as mais representativas que Alagoas já teve. Seus exemplos, suas qualidades e sua vocação para servir fizeram dele um cidadão, um político, um homem público e um parlamentar que seus amigos prantearão para sempre e que a opinião pública não pode nem deve esquecer. (*) É empresário e ex-deputado estadual.