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Opinião

O gato da gata

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Eu, simpaticíssimo leitor, não vejo vantagem nenhuma em recordar o que se deve esquecer. Acho que as vicissitudes e ingratidões que a vida nos obriga a enfrentar devem ser atiradas impiedosamente no inferno abissal do esquecimento. No entanto, não receio narrar aqui um fato que vivi em um dia próximo ao período momesco. Recordo que o automóvel em que estava como passageiro sacolejava suas ferragens na avenida de paralelepípedos mal calçados e indecentes que a cidade da Barra de São Miguel possui na sua saída para Maceió. A luminosidade escandalosa do sol, varando o parabrisa, fechava-me os olhos. Estava entrando naquele estado letárgico que antecede o sono, quando o carro estaciona bruscamente e ouço um berro visceral: ?Meu Deus do céu! O que é aquilo??. Ainda aturdido viro o rosto e compreendo o motivo do escandaloso berro: um majestoso jorro de água, parecendo uma cascata, saía da ponta de uma mangueira, molhando a terra nua e esturricada. E, segurando a ponta da mangueira, uma mulher. A jovem aparentava ter 25 invernos entre o peito e as costas. O vestido branco e vaporoso realçava sua pele bronzeada. Linda! Identifico-me e cumprimento-a mirando seus olhos cor de esmeralda. Pergunto-lhe, polidamente, o que ela estava fazendo com aquele jorro de água. A resposta vem como uma bofetada: ?O que o senhor tem com isso? Eu faço com a minha água o que eu quiser?. Aquilo me afligiu como uma úlcera perfurada. Não tenho, amigo leitor, temperamento de mártir e, naquele instante, tive ganas de aplicar-lhe um piparote, mas era uma dama e eu ? desculpe, caríssimo leitor, a ausência de modéstia ? sou um cavalheiro; portanto, contive-me. Explico à jovem que estávamos com dificuldade para abastecer a Barra no carnaval, devido ao elevado consumo e que devíamos economizar água. Apelei para o vernáculo do ambientalista sisudo ?de que devemos preservar as riquezas naturais do mundo para as gerações futuras?. Ao ouvir isso, a deusa grega, sem nenhuma doçura lança seus olhos contra os meus e rosnando, afirma: ?Oh, e você não acha que o futuro pode tomar conta de si mesmo??. Retruco-lhe que se a humanidade mantiver esse comportamento o futuro estará irremediavelmente ameaçado e, já irritado, replico-lhe: ?Eu estou fazendo a minha parte e almejo que a senhorita reveja suas atitudes?. Volto as costas para a ninfa deixando-a com uma expressão abobalhada. Entro furibundo no carro batendo a porta com força. O colega indaga: ?E aí??. Angustiado, respondo: ?Anote o endereço e mande vistoriar a ligação de água. Com certeza ela tem um gato!?. (*) É engenheiro da Casal.

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