Internacional
Irã e Venezuela

Em uma semana, a guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã já se alastrou para o Líbano, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar, Bahrein e Omã. O sul do Líbano foi bombardeado por Israel e os demais países pelo Irã, como represália ao ataque e à morte do aiatolá Ali Khamenei. Segundo o The New York Times, no sul do Irã uma escola para meninas foi bombardeada, e pelo menos 175 crianças foram mortas.
A ideia inicial de que a guerra teria um curso e um resultado similares ao que ocorreu na Venezuela, com a deposição do ditador Maduro e a imediata submissão do regime aos EUA, é uma aposta arriscada.
Procurando beber em várias fontes sobre essas variáveis, a que achamos mais oportuna, objetiva e adequada ao espaço foi a leitura de Hélio Swartzman, colunista da Folha de S. Paulo. Daí, somando com outras fontes, externamos a visão do desenrolar do conflito para este momento.
A psicologia infantil é uma ferramenta útil para entender Donald Trump. Uma de suas características marcantes, conhecidas já desde o primeiro mandato, é que ele com frequência se deixa convencer pela última pessoa com a qual conversou. Nos tempos em que ainda havia assessores republicanos adultos tentando contê-lo, a ordem era nunca deixar que integrantes do Team Crazy (turma dos malucos) fossem os últimos a deixar a sala.
Algo parecido vale para as ações militares. Trump decide lançá-las ou não com base nos resultados da última intervenção. Ainda inebriado pelo que considera sucesso venezuelano, o “Agente Laranja” foi para cima do Irã na esperança de obter algo parecido. Ele parece estar em busca de uma Delcy Rodríguez persa, que seria o melhor modo de cumprir seus objetivos sem ter de despachar soldados americanos para ocupar o solo nem precipitar o país em uma guerra civil.
Não digo que seja um desfecho impossível. Se as lideranças iranianas remanescentes quiserem manter suas vidas e privilégios, acertar-se com Trump é o melhor caminho. Mas são tantas e tão grandes as diferenças entre Irã e Venezuela que é preciso ou excesso de fé ou falta de visão geopolítica para achar que um resultado semelhante seja o cenário mais provável.
Para começar, no caso caribenho, os indícios são de que, quando Trump ordenou o ataque, já estava tudo previamente acertado entre Washington e Caracas. No caso do Irã, não há nada combinado.
Na Venezuela, a ideologia bolivariana não era nada além de uma camada de verniz. No Irã, as bases teocráticas do regime são bem mais sólidas. Não são poucos os agentes que sacrificariam esta vida por um lugar no “jannah”, o paraíso islâmico. No mais, o Irã fica no Oriente Médio, onde crises se espalham para múltiplos países e minorias transnacionais. EUA e Israel abriram uma caixa de Pandora.
A impressão é que o último a conversar com Trump foi Netanyahu. A guerra interessa muito mais ao premiê israelense do que ao presidente norte-americano. As pesquisas internas norte-americanas já mostram essa rejeição. Netanyahu precisa de uma guerra contínua para se manter no poder.
