Opinião
A sopa do Denis
Crítico, quando preciso, basta ler ?No tempo em que os desembargadores andavam de bonde? ? o título tudo exprime ? é apaixonadamente envolvido pela Viçosa mais viçosa de todas que existem, quando a descreve. Paixão que carrega e transmite, não só ele, como seu mano jornalista Dêvis Melo. Quando de seu berço falam, sente-se um halo que contagia. Contaminei-me por, prazerosamente, encontrarmo-nos aos sábados para um bom papo. Assim que ?Do fundo da gaveta? chegou-me às mãos, senti enorme impulso de tecer meus modestos comentários. Livro lançado em fins de 2008, teve orelha e apresentação de Marcos Vasconcelos Filho e Aldo Rebelo, respectivamente, que dispensam apresentação, deixando ao escriba aqui, muito pouco. Mas, Denis Portela de Melo envolve-nos de tal forma com o que tirou de sua gaveta, que não pude deixar de bedelhar. Nas tantas crônicas gostosas de sua vivência viçosense, nota-se o fulgurante papel que o município desempenhava na Alagoas de antão. O funcionamento de bancos, indústrias, tipografias da terra e outros serviços hoje inexistentes, é um testemunho. Em 13 de outubro de 1931, comemorando os cem anos de Viçosa, foi editado o Álbum do Centenário, composto e impresso na ?Typographia Viçosense?. A vocação para o cultivo da intelectualidade favoreceu a presença marcante no mundo das artes e letras, de há muito, até nossos dias. Denis traz tantos relatos interessantes que não se pode destacar algum, mas, como usei como mote, vou servir ?A sopa?. O Bar Fênix funcionou do início da década de 1930 até fins dos anos 1980, passando por vários donos, desde Juca Toledo, seu fundador, até Wilson Silva. Do Bar do Wilson, como ficou conhecido, diz ?recordar com saudade de suas deliciosas sopas, servidas a partir das 21h, para atrair aqueles que desfrutavam dos encantos da noite, como eu (em priscas eras, naturalmente)?. Se a sopa era uma delícia durante toda a semana, aos sábados, era de ?estalar os beiços, um acepipe?. Não chegava para ninguém. Quando com ele esteve pela última vez, antes de sua morte, Denis referiu-se ao sabor incomparável de sua sopa, especialmente a do sábado. Disse-lhe Wilson: ?Olha, rapaz, a receita era simples: eu ia juntando o que sobrava da segunda, terça, quarta, quinta e sexta e misturava tudo no sábado?. De certa forma, assim fez o Denis; trouxe-nos, ?Do fundo da gaveta?, com recordações de várias épocas da amada Viçosa e brindou-nos como uma deliciosa sopa. (*) É bacharel em Economia ([email protected]).