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Opinião

Meu muro, minha vida

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O governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, tomou uma decisão que, além de polêmica, é muito corajosa: construir 11 mil metros de muros de concreto, com três metros de altura, por R$ 40 milhões para proteger os restos de florestas nativas existentes nos limites urbanos da cidade. Muitas avaliações apaixonadas podem ser e estão sendo feitas por membros da sociedade local, sem lembrar que muros que separam áreas habitadas de zonas públicas urbanas não são novidade. Os condomínios residenciais fechados, versão mais humanizada dos de apartamentos, servem, ambos, para isolar e aumentar a qualidade de vida de cidadãos que passam a contar com mais segurança, ruas limpas e sem buracos, jardins sempre verdes, serviços de saneamento internos que funcionam e longe dos problemas enfrentados pelos que não podem pagar um valor extra para substituir o papel do poder público. O governador do Rio de Janeiro implanta a novidade de florestas fechadas por muros de concreto para fugir da invasão de moradias irregulares, para impedir o desmatamento e suas consequências, para evitar que traficantes tenham mais espaço para fugas ou outras atividades. Ainda que boas intenções existam, a construção dos muros confirma a falência do poder público para impedir que áreas urbanas sejam invadidas e destruídas. Atesta a incapacidade de se ter uma política habitacional que possibilite a aquisição de moradias dignas. Mostra como estamos distantes de encontrar cidadãos, de qualquer condição econômica, que tenham educação suficiente para entender a importância da conservação das florestas ou que possuam o mínimo de educação cívica para considerar que os bens públicos são de todos e, portanto, devem servir para o bem-estar da sociedade. Não há como fugir da evidência de que a falta de educação fundamental e a desqualificação do ensino público foram e são a base do que acontece no Rio de Janeiro e caminha para tornar-se mais uma normalidade lulista que investe desproporcionais esforços e verbas com o ensino superior e a PPP informal do Prouni. Os muros que cercarão as florestas do Rio de Janeiro podem ser encarados até como uma ação emergencial para impedir que os morros fiquem carecas e as moradias em seu entorno desapareçam ladeira abaixo levadas pelas chuvas. Entretanto, com certeza eles devem servir como exemplo de que o modelo de gestão pública adotado até agora e certificado com as ISO do governo Lula não nos levarão ao desenvolvimento social, econômico e ambiental que impedirá a construção de mais outros muros. Quando às praias, serão cercadas? E as margens de nossos rios? (*) É diretor Nordeste da Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental).

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