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As pessoas incomuns

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João Gilberto tem uma rotina invariável: diariamente, às 11h da noite, telefona de seu apartamento no 29º andar de um apart-hotel no Leblon para seu amigo ?Garrincha?, maitre do restaurante Búfalo Grill e lhe pergunta se existe alguma novidade no cardápio. Independentemente do que seja a resposta, o compositor pede um steak ao sal grosso, a única coisa que varia é o acompanhamento; salada ou arroz com batata palha. João é um homem de hábitos estabelecidos. ?Garrincha? atende com desvelo o seu cliente especial: providencia a comida e a envia pelo copeiro Antônio Francisco, Tuninho, que a leva ao apart-hotel. Quando chega lá, Tuninho liga da recepção para o apartamento, recebe autorização para subir. Toca a campainha e entrega as bandejas pela porta entreaberta. Recebe o pagamento em dinheiro, ainda uma generosa gorjeta e leva as bandejas e pratos da noite anterior. Exerce esta rotina há mais de cinco anos e nunca conseguiu ver a cara de João Gilberto. Já ?Garrincha? é quase íntimo do mestre. Já houve época em que fazia a entrega pessoalmente e até hoje João lhe manda os seus lançamentos, conhece os seus filhos pelo nome, sabe a data de seus aniversários, pergunta por eles, mas o máximo que conseguiu foi vê-lo pela fresta da porta quando entregava-lhe as bandejas, ocasião em que trocaram algumas palavras. João, algum tempo atrás, precisou fazer um tratamento dentário e um amigo, ex-companheiro de rodadas de violão, atualmente catedrático de odontologia da UFRJ, sabendo-o adverso a consultórios, transportou toda a parafernália odontológica para o apart-hotel, onde João fez os reparos devidos. Há muitas histórias sobre sua excentricidade, todavia, nenhuma o irrita mais do que a velhíssima do gato: contam que o bichano teria pulado de uma de suas janelas após ouvi-lo repetir um acorde durante doze horas seguidas. Pura maldade, o gato, um siamês, chamado Gato, não se suicidou, apenas cochilou e caiu. João Gilberto é uma pessoa incomum, por seu talento, por sua genialidade, só proporcionou benefícios ao ser humano. Ao contrário dos incomuns de Lula, como Sarney, que com suas longas práticas de benefícios absurdos e irregulares, só desmoralizam o Congresso Nacional e a democracia. Estes incomuns, por sua ?biografia?, se acreditam nobres, ou ?brâmanes? indianos. Ao contrário daqueles, que são superiores por ser mais puros e respeitar mais as leis e dar mais bons exemplos, os nossos incomuns, erradamente se julgam superiores e assim agem acima das leis. (*) É médico e professor da Uncisal.

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