Opinião
Uma noite de academia

JOSÉ MEDEIROS * Quando se fica frente a frente com o público num teatro repleto de pessoas, o primeiro pensamento que ocorre é o de preocupação: ?Será que tudo vai dar certo??. Numa ocasião como essa há que dizer de si para si palavras de estímulo e auto-sugestão: está tudo bem, vou manter o autocontrole, não há o que temer. Entretanto, em minha posse na Academia Alagoana de Medicina, no Teatro Deodoro, um segundo pensamento me ocorreu: largar o ?script?, o discurso escrito e trabalhado, e falar de improviso ao sabor da emoção e em função dos sentimentos que me tomavam. Dominei o impulso e segui o protocolo. Li o texto. Lembrei da formatura do meu curso de Medicina pela semelhança com a solenidade da Academia. A formatura é o passo inicial da carreira médica; num outro extremo, a Academia é o degrau mais alto de uma escalada profissional e científica. Há coincidências e reencontros nos dois fatos. Nosso paraninfo do curso médico foi o professor Ib Gatto Falcão ? mestre emérito ? atual Presidente de Honra da Academia Alagoana de Medicina. Na relação de membros dessa entidade estão alguns de nossos professores da década de 1950: Aristóteles Calazans Simões, diretor da Faculdade e depois reitor; Gilberto de Macedo, Neurologia; Hélvio Auto, Medicina Tropical, e Luiz da Rocha Sampaio, Pediatria. São lembranças e evocações emotivas. Encontrei, também, como membros dessa instituição, dois colegas de turma: Valéria Hora de Albuquerque Melo e Eduardo Jorge Silva, além do contemporâneo Ismar Malta Gatto. Quarenta e cinco anos foram transcorridos desde a formatura. Os tempos vão e voltam ao sabor dos ventos, ora agitados e tempestuosos, ora calmos e acariciantes. Numa rápida análise desse percurso de vida advém-me a certeza de que jamais procurei ver o panorama de cima da ponte, a distância dos acontecimentos humanos. Não fui indiferente ou omisso, mas participante, aprendendo continuamente a difícil arte da convivência humana, da solidariedade social, do caminhar juntos, do enxergar males e tragédias que se desenrolam no dia a dia da população. Luta-se para possuir bens materiais. Pela ciência e cultura, alcança-se a consciência de ser mais. Pela humanidade de nossas ações atingimos a essência universal do íntimo de nosso ser espiritual. Nenhum homem é uma ilha solitária; somos todos continentes, cercados de humanidade por todos os lados. Os agradecimentos foram feitos aos médicos: Antônio de Pádua Cavalcante, presidente da Academia e Milton Hênio Gouveia, ex-presidente dessa entidade. Valéria Hora de Albuquerque Melo foi autora de generosas palavras que calaram fundo em minha sensibilidade. Agradeci a todos os colegas e amigos que compõem o quadro de sócios efetivos, afirmando estar honrado pela distinção e grato por esse reconhecimento. Creio que vou sentir-me feliz na Academia de Medicina. Acredito em seus propósitos e objetivos. Admiro sua contribuição aos debates e à análise da produção científica contemporânea. E mais: é agradável o convívio humano, cordial, impregnado de espírito fraterno. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE