Opinião
Buraco real
Desmancha-se no ar o que era sólido no governo FHC. Moeda apresentada como sólida, o real não pode esconder mais suas fissuras e perde, a cada dia de rodada da Bolsa, mais maquiagem e mostra sua verdadeira face, carcomida por uma deliberada política de desprezo pelo desenvolvimento e de prioridade numa forma subserviente de incorporação à economia global. Rompida a barreira dos três reais para um dólar, o processo não demonstra perda de velocidade. Voraz, o mercado suga os dólares colocados à venda pelo governo federal. Vão-se anéis e dedos, pois mesmo com a cota diária de moeda americana colocada à venda, a tendência não muda ou sequer estaciona. Deteriora-se a olhos vistos a situação da balança de pagamentos do Brasil, sendo assustadora a perda de reservas internacionais (52,6% este ano, segundo o jornalista Umberto Martins, que afirma: ?A crise não esperou as eleições?). Na imprensa internacional, termos como ?momento crítico? definem a conjuntura brasileira e o risco de moratória começa a ocupar espaço nas páginas especializadas. De fato, bem que FHC tentou passar a bomba de efeito retardado para o sucessor (qualquer que venha a ser). Mas os problemas são mais graves que pode supor a vã filosofia dos doutores do neoliberalismo no Brasil. Já não se fala mais em cheiro de fumaça, é fogo mesmo. O governo federal tem a obrigação de assumir suas responsabilidades nesse próprio momento e a campanha eleitoral não pode ser usada para mascarar a crise ou para postergar as medidas de enfrentamento dessa situação. Pedir novos empréstimos ao FMI não pode ser tido como a única solução, até porque os credores desconfiam do destino suíço desses recursos. A verdadeira face da política econômica do governo FHC começa a ser vista. E assusta. Sem medo da cara feia, o Brasil tem de mudar seu rumo econômico, nem que seja depois das eleições. Mas, em quaisquer circunstâncias, a cidadania não pode abrir mão de investigar as causas e os responsáveis por esse desastre econômico real. Essas figuras têm nomes e endereços de fácil localização entre 1994 e 2002.