Opinião
Aos inimigos, a lei; aos amigos, uma Sereia
Mesmo tendo nascido e vivido a maior parte da minha vida em Alagoas, ainda guardo em mim (não sem o devido custo) a capacidade de me indignar com a desigualdade de poder. Recentemente essa indignação foi despertada pelo conflito entre o poder público e os ?barraqueiros? da Praia da Sereia. Obviamente já tomei partido em favor da comunidade da praia da Sereia, ou seja, seus ?barraqueiros?, garçonetes, cozinheiros, vendedores de amendoins, raspadinhas e acarajés. São, em sua maioria, moradores de sítios e povoados situados nas imediações da democrática praia. Gente simples, com pouco capital, excluída dos processos decisórios. Acontece que a belíssima praia, onde a barreira de recifes forma uma piscina natural, é motivo de cobiça de investidores, a maioria deles estrangeiros. Faz-se uso da lei: uma ação de desapropriação está em andamento contra aqueles que ocupam tradicionalmente a área de patrimônio da União. Historicamente, remover população de baixa renda de áreas em valorização tem sido tão fácil quanto roubar o pirulito de uma criança. O recurso será julgado em Recife, a antiga sede da nossa capitania hereditária. É lamentável que a história se repita: o nosso litoral, assim como o pau-brasil e o ouro, vem caindo em mãos internacionais, que curiosamente realizam projetos em áreas non aedificandi e constroem bares na areia da praia, como se estivessem numa terra sem lei. Em muitos anos de trabalho em Alagoas tenho protestado inutilmente contra o modelo de ocupação do litoral. Em minhas aulas e palestras sempre enfatizo a necessidade de se preservar os trinta e três metros iniciais contados da preamar média. É correto: são áreas frágeis e sujeitas a variação de marés por ciclos longos e curtos. Para minha tristeza, entretanto, desconheço projetos em andamento que regularizem o acesso à praia e que impeçam a sua privatização, coisa mais urgente. No litoral norte de Maceió, há somente acessos pontuais. De Cruz das Almas à Sereia são apenas 10 a 15, em mais de 12 km. Dali em diante a situação piora: casas de veraneio, clubes e balneários proíbem, inibem ou dificultam o acesso à praia. Então me pergunto, por que agora resolveram montar (ou melhor, desmontar) o barraco justamente na Praia da Sereia? Essa pergunta faz mais sentido quando a prefeitura afirma ainda não ter um projeto para a área. Demolir para quê? Ações de desapropriação em áreas públicas precisam ser discutidas com a comunidade. (*) É professora da Ufal.