Opinião
Golpes x reelei��es
Quando se imaginava ter sarado a chaga continuísta que marcou a história da América Latina, o espectro da reeleição paira como uma nova ameaça à alternância de poder. E como se não bastasse isso, manifesta-se, novamente, o fantasma dos golpes de estado. Honduras é o mais novo teatro onde os dilemas políticos ganham solução via manu militari. A desculpa para a quartelada é que seria um contragolpe, ou seja, derrubou-se o presidente sob a acusação de que o mesmo queria se reeleger. Reeleição para presidente é uma novidade nos países latino-americanos pós-ditaduras. A ideia, apresentada como copiada dos Estados Unidos (mas lá a tradição é outra), em termos de países mais importantes desta parte do continente, foi introduzida pelos peruanos, nos idos de 1993, no embalo de Fujimori. No ano seguinte, Menem reproduziu a mesma ideia na Argentina e, em 1997, foi a vez do Brasil, em benefício de FHC (ao custo da criação do ?mensalão?). Finalmente, Hugo Chávez atreveu-se a ultrapassar o complacente hímen da limitação em ?apenas uma? recondução e direcionou a Venezuela para a senda da reeleição ilimitada. No meio desse furor continuísta, perpetra-se um golpe de Estado com a justificativa de impedir mais uma república equipada com o veículo da reeleição. Em bom tempo, protestos veementes foram emitidos contra a quartelada hondurenha. Mas a questão está longe de ser resolvida, posto o encadeamento dos mandatos seguir como um objeto do desejo. Lula, apesar de seguir em franco assédio por parte da companheirada, mantém-se firme em recusar a benesse do terceiro mandato sem intervalos. Na Colômbia, porém, a teoria chavista prova sua capacidade de mudar de faixa com a franca simpatia do presidente Uribe e seus aliados pela terceira eleição seguida. Enfim, com ou sem golpe, o espírito segue sendo o mesmo.