Opinião
A vida � curta, longa � a arte...
Durou pouco a folga de José Sarney. É que a morte de Michael Jackson tirou o foco de cima do presidente do Senado durante ralos dias. O popstar americano (que não fazia o meu gênero), não obstante as inquestionáveis qualidades artísticas, estava afastado do seu público. A fama de pedófilo, a aparente autorepulsa pela cor da pele, a reclusão voluntária (?), a prolongada ausência da ribalta, dentre outros fatos, foram decisivos. Aliás, a própria mídia havia batido sem dó ou compaixão no atormentado cantor, na época do seu inferno zodiacal. Diferentemente de Elvis Presley, era um morto-vivo em vias de ressurreição com os programados 50 shows de Londres, que, segundo dizem, seriam seu ?canto do cisne? e a tábua da salvação para saldar a dívida milionária Não é de estranhar, pois, a pouca comoção com sua morte precoce e inopinada. Além dos trejeitos (pagos regiamente) que influenciaram uma geração, a história de Jackson será relembrada como a de um garoto talentoso que viveu contos de fada e se negou a crescer. Não por acaso se achava a encarnação de ninguém menos que o próprio Peter Pan. O fato é que os escândalos no Senado resistiram bravamente à morte do ídolo e seguem a escancarar os mil e um conchavos que há muitos anos cercam a vida da mais alta casa parlamentar do País. Num determinado momento, os mortais comuns se preocuparam em descer a lenha num coitado de um inadaptado negro americano carregado de traumas de infância e esqueceram de olhar a nossa enlameada sala de visitas. É ingenuidade pensar que Sarney esteve só nessa missão de sugar o máximo de proveito para si e parentes. Tanto é que não lhe faltam amigos que não hesitam em nadar contra a maré da opinião pública. A propósito, esta semana a rádio CBN divulgou entrevista com os senadores Wellington Salgado e Cristovam Buarque. Político sem votos, conhecido de outros carnavais, Salgado, o da repelente cabeleira, é um arrebatado defensor de Sarney. Para ele, o ?experiente? José Sarney, na qualidade de ex-presidente da República, não iria manchar (?) a biografia com coisas ?pequenas? como, por exemplo, ajudar a montar um esquema milionário de intermediação para um netinho querido... Diante da curiosa argumentação, reportei-me ao velho e bom Hipócrates. Num dos seus célebres preceitos, o Pai da Medicina já ensinava: ?A vida é curta, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil?. (*) É médico e professor da Ufal.