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Opinião

O Brasil e a solidariedade

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A solidariedade é um sentimento nobre e belo, não resta a menor dúvida, e por isso mesmo não deve ser usada apenas como uma forma de propaganda política no exterior quando ela não existe no país de origem, nos momentos em que seu próprio povo passa por infinitas dificuldades e não merece do governo a mesma comiseração. Em todos os momentos que alguma catástrofe acontece no mundo, o Brasil é o primeiro que se apresenta para oferecer ajuda. Conflito no Haiti, lá vão as tropas brasileiras correndo para auxiliar, mesmo que isso importe em grandes somas em dólares e risco para os soldados; terremoto no Peru, tremores na Itália, somos os primeiros a chegar com mantimentos; crise financeira mundial, logo estamos à frente com um empréstimo até para o FMI. Provavelmente parecemos um país multimilionário e que aqui não existem adversidades, nem catástrofes e nadamos em dinheiro. Deve haver, mesmo, muita grana no Brasil, haja vista o desperdício e a roubalheira entre alguns políticos e chefes de instituições públicas. E a distribuição de terras na Amazônia e outras dádivas visando à próxima eleição? Não temos estradas destroçadas, não temos enchentes destruindo várias cidades deixando na miséria e ao relento milhares de famílias? Do colapso financeiro sofremos apenas uma ?marolinha? que não reduziu em 15% as fortunas dos mais abastados, não deixou sem emprego milhares de trabalhadores do País e várias empresas falidas. Nossa saúde pública não é uma vergonha, a educação não é uma desgraça. Nunca há recursos para sanar nossos problemas. Enquanto o povo se afoga nas enchentes do Norte, do Nordeste e de Santa Catarina, o nosso chefe pega o avião presidencial e passeia pela Turquia, pelo Kazaquistão (nunca ouvi dizer que algum presidente tenha ido a esse remoto país) e outros lugares com sua trupe, como se nada estivesse acontecendo no Brasil. Anda pelo mundo espalhando sorrisos; contando vantagens de seu governo; sendo chamado de ?o cara? na intimidade com o presidente americano; sentando-se ao lado da rainha inglesa para ser fotografado; elogia o tirano do Irã recém-reeleito, quando seu próprio povo o odeia e põe em dúvidas a legalidade das eleições. Isso tudo é realmente engraçado! Quando vejo na televisão o estado de nossas estradas; o abandono das escolas públicas, algumas em galpões cheios de goteiras, com as crianças sentadas no chão por falta de carteiras, depois de caminhar quilômetros para chegar à ?escola?. Quando encontro as ruas cheias de esmoleres; observo os corredores dos hospitais lotados de segurados do SUS sem assistência; a violência a ceifar vidas; as obras do Programa de Aceleração do Crescimento que não andam; fico revoltada e pergunto: ?Não pagamos extorsivos impostos??. (*) É escritora.

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