Opinião
N�o tivemos inf�ncia
Dentro das frivolidades que se pôde presenciar no ?tributo? ? como foi chamada a cerimônia que precedeu o sepultamento do corpo do cantor Michael Jackson na última terça-feira ? houve uma expressão, que nos faz pensar sobre a infância e a adolescência, setores da multidão de seus fãs, particularmente atingidos por seu exemplo e suas atitudes, nem todas merecedoras de louvor. Foi o depoimento dado por uma de suas amigas particulares, especificamente o da atriz Brooke Shields, a jovem protagonista do famoso filme ?A Lagoa Azul?. Fez ela uma declaração preocupante, mais ou menos nestes termos: ?Nós não tivemos infância, eu, aos 11 anos, e você, Michael, aos cinco, já fomos expostos à fama e à celebridade mundial?. Fiquei pensando no caso parecido de Shirley Temple, de meus tempos de menino, ídolo do cinema da época, sobretudo das crianças, mas que abandonou cedo a carreira cinematográfica, tornando-se política e terminou como senadora dos Estados Unidos. Outro caso, aqui no Brasil, foi o da menina de 7 anos, apresentadora precoce de programa de televisão, a respeito da qual foi anunciada agora a abertura de um processo administrativo, conduzido pelo Ministério das Comunicações, para apurar se a cadeia de televisão, uma das maiores do Brasil, abusou moralmente da menina que, considerando-se ?humilhada em sua infância, abandonou o palco em prantos? ? diz uma revista de circulação nacional. E ainda na mesma revista, pode-se ler uma longa reportagem sobre meninas de 9 a 12 anos, que vivem de penteados, maquiagem, cremes, ?muitos cremes?, acentua a revista. Ora, meus amigos, todos os educadores e especialistas em pedagogia estão de acordo que a infância e a primeira juventude são absolutamente determinantes na formação da personalidade. É nos nossos primeiros anos de vida que se formam o caráter, as nossas convicções mais profundas e pessoais, o estilo de vida, o senso de responsabilidade e a noção do dever e das obrigações, que devem reger o comportamento. Vemos a cada dia as crianças de nosso País, às quais foi roubada a infância, porque não têm lar, não têm família, não têm escola e perambulam pelas ruas de nossas grandes cidades, cheirando cola e realizando pequenos furtos; as meninas vendendo o corpo para o prazer e o vício e para terminarem vítimas da AIDS e outras doenças destruidoras da saúde, da infância e da juventude. Ter uma infância sadia e tranquila, no seio de uma família que seja bem estruturada, é uma das condições fundamentais para que no futuro se tenha uma vida adulta cheia de felicidade e equilíbrio. (*) É arcebispo emérito de Maceió.