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O caso da porca trapaceira

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Manoel Joaquim, o simpático verdureiro do bairro, nunca pensou que frases soltas em momentos de ira produziriam tantos dissabores. Típico pequeno comerciante lusitano, usava todos os apetrechos que esculpiram a figura do colonizador: do temperamento explosivo a indefectíveis suspensórios, passando pelos fartos bigodes. Era o típico português de padaria, até pelo nome. Só que não cuidava de pães. Naquela época, a comunidade ainda guardava alguns resquícios de pretensiosos ares aristocráticos que em tempos pretéritos concederam certa aura de nobreza à pequena região. Moradores tradicionais resistiam em se mudar para o Farol e a Pajuçara, bairros onde a burguesia fez morada. Dona Mocinha era uma dessas recalcitrantes. Viúva de um esperto advogado (?chicaneiro?, segundo as línguas invejosas e maledicentes), manteve o solar da família nos trinques. Filhos criados, bons cristãos, bem-sucedidos, não queria ouvir falar em mudanças. Seu mundo era ali entre a gente humilde, onde ela reinava sem trono. Com vencimento mensal, o hábito do bairro era uma abertura de contas nos pequenos estabelecimentos. Ricos e pobres embarcavam nesta operação, esboço dos futuros cartões de crédito, triunfo e desgraça das sociedades modernas. Mocinha era uma das freguesas mais fiéis. Ela era ?ouro em pó?, dizia o português enquanto cofiava os bigodes. Essa lua-de-mel duraria anos, até o dia em que a matriarca passou alguns meses sem honrar os compromissos. Um tanto constrangido, o comerciante bateu-lhe à porta. Traída pela memória, Dona Mocinha não só não admitiu a dívida como escorraçou o pobre portuga com impropérios nunca dantes escutados. Nas noites abafadas, recitando Os Lusíadas para os amigos, vira e mexe interrogava incrédulo: ?Onde aquela porca trapaceira havia aprendido tanto palavrão??. Agora recolhido na delegacia sob acusação de ?tentativa de extorsão e ofensas morais?, fora preso pelo secretário de Segurança em pessoa. É que um dos filhos de Mocinha e o secretário faziam parte da mesma sociedade benemérita. Não obstante, o titular da segurança, embora conhecido pela pouca docilidade, relutava em atender ao amigo que exigia a cabeça do português, de preferência com tortura. Num dado momento, o secretário perdeu a paciência, pôs um revólver na mão do filho de Mocinha e disse: ?A mãe é sua, o cara está aí, vá lá e atire na cabeça dele?, e acrescentou: ?Se você não fizer isso, eu vou soltar o sujeito!?. (*) É médico e professor da Ufal.

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