Reflexão
Quem oferece o futuro?
Há um erro recorrente no debate sobre crime organizado: tratá-lo como um problema que começa no ato ilícito. Não começa. Começa antes - na disputa silenciosa pela formação de expectativas.
É nesse ponto que a filosofia de Ernst Bloch recoloca o problema. Para ele, os indivíduos vivem orientados pelo “ainda-não”, pela expectativa de um futuro possível. O futuro não é apenas o que virá; é aquilo que já atua no presente, organizando escolhas e trajetórias. Mas esse futuro precisa ser crível e, por mais paradoxal que seja, presente na realidade e cotidiano de nossas crianças.
Quando a escola e o Estado deixam de oferecer um horizonte concreto — com trajetórias possíveis, reconhecimento e inserção social legítima — eles não apenas falham em cumprir um dever constitucional. Eles perdem a capacidade de orientar o futuro.
E o vazio não permanece vazio.
Em muitos territórios, quem passa a oferecer esse futuro são organizações criminosas. Não apenas como fonte de renda, mas como estrutura de pertencimento, identidade e reconhecimento imediato. Trata-se de uma promessa perversa, mas que possui uma vantagem decisiva: ela se realiza no presente.
A cooptação de crianças e adolescentes, portanto, não pode ser reduzida a desvio individual. Ela expressa uma falha estrutural na produção institucional de futuro. Onde não há expectativa crível, há substituição. Isso desloca a responsabilidade.
A nova legislação de combate ao crime organizado, recentemente publicada, amplia instrumentos importantes. É necessária. Mas atua sobre o efeito. A causa, sob nossa ótica, está antes. Está na omissão na oferta adequada do direito à educação — não apenas como acesso formal, mas como experiência capaz de produzir pertencimento, reconhecimento e horizonte real de vida.
Quando isso não ocorre, o Estado deixa de disputar o elemento central que organiza a ação humana: a expectativa. E, nesse campo, perde. O ponto é direto: o crescimento da cooptação pelo crime organizado também decorre da falha em garantir uma educação que produza futuro.
Porque alguém sempre oferecerá um futuro. A questão é quem.