Saúde
Hipocondria tem limites?
O que tinham em comum o cientista Charles Darwin, o poeta Lord Byron, o escritor Hans Christian Andersen e o dicionarista Samuel Johnson? Todos eram hipocondríacos. Todos eram atormentados por aquilo que a doutora Susan Baur, estudiosa do tema, chama de “dolorida imaginação”. Todos achavam que eram portadores de doenças graves. No que não eram exceção: estima-se que só no Brasil existam 25 milhões de hipocondríacos. São pessoas que sofrem, que recorrem a médicos e tomam remédios — e, portanto, representam considerável sobrecarga para os serviços de saúde.
Hipocondria não é coisa nova. O próprio termo é antigo: hipocôndrio quer dizer “sob as costelas”. Nessa localização ficam o fígado e o baço, que a medicina grega responsabilizava pelo excesso da chamada bile negra, causadora de melancolia. A hipocondria seria, assim, uma manifestação melancólica, o que não está de todo errado e, como a melancolia, acometeria sobretudo pessoas superiores, artistas e intelectuais.
No começo do século XIX, a medicina francesa passou a rotular os hipocondríacos como doentes. A hipocondria faz parte hoje da Classificação Internacional de Doenças como enfermidade resultante da somatização, isto é, da transferência para o corpo de uma situação primariamente psicológica.
Não se sabe exatamente o que torna as pessoas hipocondríacas. Pode ser algo genérico, pode ser o contexto familiar. Algumas situações favorecem o aparecimento da hipocondria — por exemplo, o estudo da medicina. Darwin, que era de uma família de médicos, deixou a escola médica quando, pela primeira vez, assistiu a uma operação. Chegou a passar mal.
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No passado, falava-se da “doença da terceira série”, época na qual os estudantes começavam a frequentar as enfermarias. Moacyr Scliar cita um colega de faculdade que lhe ligou apavorado, pois estava com uma doença grave (os males dos hipocondríacos nunca são banais). Ele foi até a casa do colega “adoentado gravemente” e encontrou-o com o Cecil, tradicional manual médico. Então, o “enfermo” leu para ele: “Mal-estar generalizado, eu tenho. Dores difusas, também tenho...”. Scliar pediu para ver o capítulo e chamou-lhe a atenção para um detalhe: era uma doença quase exclusiva de mulheres. A reação do “enfermo” foi um misto de alívio e decepção, como se estivesse se perguntando: “E agora, do que vou me queixar?”.
A verdade é que o hipocondríaco sofre. O tratamento, em geral, é de natureza psicoterápica, às vezes combinado com medicação antidepressiva, como mostra um trabalho médico clássico publicado no JAMA (Jornal da Associação Médica Norte-Americana).
A hipocondria é uma doença estigmatizada, e as pessoas têm vergonha de procurar ajuda, mas o tratamento funciona, sim. No geral, um pouco de medo é salutar: faz-nos tomar providências como ir regularmente ao médico, evitar substâncias prejudiciais à saúde, alimentar-se de maneira mais saudável e procurar psicoterapia quando necessário.