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Tenho dos tempos de infância algumas inolvidáveis lembranças: as caminhadas na então quase deserta praia da Pajuçara, os lagostins que se pescava mergulhando nos currais que se localizavam a poucos metros da areia. Ali, onde o majestoso Gogó da Ema, nosso maior cartão de visitas da época, imponente, imperava e vivia os seus últimos dias. Foi lá que se concentrou a imensa estrutura destinada a abrigar a comitiva do presidente Lula, que veio inaugurar a revitalização da orla e as autoridades locais. As belíssimas orlas da Pajuçara e da Ponta Verde estavam limpas como nunca. Livres inclusive do grupo de moradores de rua que vive ao relento em determinado trecho. São famílias inteiras com adultos, crianças e cachorros vira-latas, que teimam em morar e fazer as suas necessidades ali, tendo como teto unicamente o coqueiral. Enquanto no palanque as autoridades exaltavam as recentes obras, felizmente os fundos estavam devidamente encobertos por altíssima grade que não só os protegia e lhes dava segurança, como evitava que tomassem contato com antiga língua negra, que insiste em lançar despojos naquela região. Lá os discursos foram inflamados e exuberantes. O entusiasmo foi tamanho que Lula foi ungido à única condição que lhe faltava: novo Messias, ornado agora de redentora missão divinal, o que tornou o clima de tal ordem sublimador, que velhos e ferrenhos adversários de ontem, hoje reconciliados, não só compartilharam o mesmo palco como fizeram incomensuráveis elogios mútuos, que a política tem esta capacidade única e grandiosa de aproximar os distantes em torno dos interesses maiores da comunidade. Afinal, segundo Stanislaw Ponte Preta, no Brasil a política se resume em não deixar a onça com fome, nem o cabrito morrer. Nada é tão admirável em política quanto uma memória curta (J.K. Galbraith), assim logo depois em um arroubo emocional ? que tanto agrada ao seu eleitorado ? Lula exaltou as qualidades dos ilustres senadores como pizzaiollos. Incompreendido, causou indignada rejeição e algumas respostas malcriadas, afinal, a pizza tornou-se prato principal em altos segmentos das mais importantes instituições nacionais e não apenas no Senado. Depois da extraordinária cerimônia, desfeito o palanque, voltaram para a orla os antigos moradores de rua e a língua negra continuou a despejar os seus detritos, que a realidade, sempre enjoada e imprevisível, teima em se fazer presente, assim como as saudades do Gogó da Ema. (*) É médico e professor da Uncisal.

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