Editorial
Alívio temporário
O avanço da inadimplência no Brasil deixou de ser um problema individual para se tornar um entrave macroeconômico. Com quase um terço da renda das famílias comprometida com dívidas, o consumo perde fôlego, a atividade desacelera e os efeitos positivos de indicadores econômicos deixam de chegar ao cotidiano da população. É nesse contexto que o governo prepara um novo programa de renegociação, tentando reativar o crédito e aliviar o orçamento doméstico.
A proposta, ainda em construção, mira um público específico: trabalhadores de menor renda, mais expostos a modalidades caras como cartão de crédito e cheque especial. No entanto, a pressa em lançar o programa contrasta com as incertezas sobre seus parâmetros centrais. Programas desse tipo podem aliviar o problema no curto prazo, mas não atacam suas causas estruturais, como o alto custo do crédito e a fragilidade da educação financeira.
Além disso, ao focar nos inadimplentes, o governo deixa em segundo plano um contingente crescente de famílias que, embora adimplentes, operam no limite do orçamento. O desafio, portanto, vai além de renegociar dívidas. Trata-se de reequilibrar a relação entre renda, crédito e consumo em um país onde o endividamento já atingiu níveis recordes.