Opinião
Uma chuva de (des)culpas
Tão logo chove, as autoridades públicas, a imprensa e a população esgoelam: ?As chuvas castigam Maceió!? A partir daí, para os de crença supersticiosa, quando não sobra para o diabo, sobra para Deus. Lembra da inundação em Santa Catarina ano passado? Pois é. Deus certamente não teve nada com ela, e sim a própria ignorância humana. Antes de o pandemônio acontecer, onde estavam os meteorologistas com suas previsões? Por que a defesa civil não interveio nas arriscadas construções habitacionais às margens do Vale do Itajaí? O que dizer dos habitantes que, mesmo cientes do histórico da cheia do rio, desprezaram o antigo alerta do governo? Questões que nem a imprensa nem as autoridades públicas se preocuparam em fazer, mas estava lá na Folha de São Paulo a vacante manchete em nome do sensacionalismo trágico: ?Santa Catarina ainda maltratada pelas chuvas?. São as pequenas coisas que causam as grandes tragédias. Ora, a chuva chove e nada tem a ver com calamidade pública; e isto, tampouco, não ?é como Deus quer?. Sempre choveu, sempre choverá mais ou menos volume cúbico do límpido H2O, e, ao mesmo tempo, sempre se ignorou e se ignora as áreas de risco em Maceió, seja por parte dos órgãos de controle urbano, seja por parte dos moradores sem condições de habitar em casas dignas (como as dos dirigentes dos órgãos de controle urbano). Então todo ano se espera a mesma coisa: soterramento para culpar as chuvas; e ai do município se não culpá-las, pois como vilão, não teria o heroísmo de promover suas promessas de habitação nem a convocação de donativos aos desabrigados, é claro. Já dá até para ouvir daqui o murmúrio daí: ?Mas a chuva inundou a área nobre da cidade também?. Ah, é? Mas daí você lê daqui: a área nobre conquistou um feito nobre ? superar a imprudência das áreas de risco. Não é difícil notar que o lixeiro para o seu consumo é o chão; do chão o lixo vai ao bueiro; e o bueiro entupido não escoa água do mero chuvisco, fazendo com que em minutinhos a natureza devolva a sujeira para os que sujam. Nada mais limpo e nada mais justo. Em verdade tudo isso demonstra o quanto nossa época inconsequentemente materialista nos tornou insinceros, (e sem manipular grana em Brasília, hein?) a ponto de, numa chuva de desculpas, culparmos tudo e a todos para esconder nossos erros e saquinhos jogados no chão. Só que quando cair um temporal de verdade em Maceió e vier o aguaceiro, xi! Estou até ouvindo Deus dizer: ?Vixe, não fui eu! Não fui eu!?. (*) É estudante de Letras da Ufal.