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O rascunho inacabado

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Devemos trabalhar a nossa felicidade. Mas, pessoa alguma será feliz se não ocupar o lugar certo em sua vida. Entre aquilo que possuímos e o quanto desejamos possuir, há o espaço em que devemos trabalhar fazendo o borrão da vida para, logo após, passá-lo a limpo. Tudo porque nós somos inacabados. Somos o rascunho da felicidade que vamos decifrando ao longo da caminhada. Somos como o rio em processo de vir a ser. O encontro de outras águas e a confluência de outras nascentes tornam o rio mais volumoso. Por que duvidar? Somos água, recebendo afluentes e nos transformando em mais, com o volume de outras águas que não são nossas. Que é que acontece, quando sentimos a dor que não é nossa, mas, que pela força do olhar que nos fita, vem tornar-se nossa? O que dos outros recebemos leva tempo para ser decifrado, em favor de nossa felicidade. Quanto recebemos nos afeta com seu poder de vivência. Cultivamos em nós o acúmulo de muitos mundos, repletos de reações inusitadas e de sentidos ocultos. Um dia somos multidão; já no outro vivemos de solidão. Nós somos assim: sem querer ser só multidão e muito menos querer ser solidão. Queremos ser felizes, dando significados novos às coisas que estão acontecendo agora. O inacabado que se encontra em nós luta para chegar à luz do dia e tornar-se nossa felicidade. Trata-se de um borrão que deve ser passado a limpo, quanto antes. E assim, vou procurando identificar o meu eu. A identidade do Eu significa o sentimento de que eu aceito todas as esferas de minha vida e de que as integrei ao meu eu, procurando encontrar a unidade interior do meu ser. Ao passar o borrão da vida a limpo, cada pessoa é capaz de individualizar e, ao final, de generalizar e de fertilizar seu desempenho criativo. Assim, o ser humano, que descobriu a unidade interior de sua vida, que exala vitalidade, que revela sempre ideias novas, não deixa de ser importante para os outros e de, assim agindo, corresponder à vontade de Deus. Então, o inacabado de nossa vida se vai tornando acabado, recebendo aquela forma que vai ser colocada no porta-retrato de nossa sala de visitas. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e presidente da Academia Alagoana de Letras.

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