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Opinião

Viver em voz alta

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Para os que ainda não sabem, o escritor tem um dia dedicado a ele: 25 de julho, que no calendário religioso é data consagrada de São Thiago de Compostela. Eu sempre me recordo desse dia com carinho, e não apenas por gostar de escrever, mas pela admiração que tenho por tantos homens e mulheres que, por meio de seus escritos, tornam a vida mais intensa, e, por vezes, bela e poética. Escrever é viver em voz alta, pois, o que se diz é escutado por muitos, às vezes por milhares. Para alguns escrever é quase uma necessidade visceral. Necessidade de pôr em palavras visões de mundo, reflexões, desabafos, sofrimentos, solidão. Um escritor é, portanto, um observador da vida, que sabe tirar lições das particularidades do cotidiano, transformando cada uma delas em matéria-prima para seu delicado trabalho. Dessa forma, ser famoso ou anônimo terá pouca importância, pois, se uma única pessoa se emocionar com seus escritos ou dela tirar algum proveito, sua missão estará cumprida. Algumas das principais características do escritor são muito pouco percebidas pela grande maioria. Escutar, por exemplo, é muito mais importante para um escritor do que mesmo escrever, pois antes de colocar no papel qualquer ideia é necessário ter refletido sobre outras tantas ideias; é preciso escutar a si mesmo e, principalmente, compreender o que quer dizer esta voz interior. Missionário de uma tarefa prazerosa, porém, complexa, outro desafio do escritor é saber ler com mestria, visto que, ler não significa apenas decodificar os códigos alfabéticos, mas sim adentrar a leitura e, quando ela oferece, extrair dela substratos que, de alguma forma, irão interagir com outros substratos internos para tornarem-se novas reflexões: são pensamentos transformados em palavras. Quando as ideias se apresentam maduras e chega a hora de levar sua mensagem ao papel, outros desafios se aproximam, exigindo clareza e coerência, independentemente do estilo que se pretenda seguir. Nessa hora, vale lembrar o brilhante Graciliano Ramos, que aconselha seguir o exemplo das lavadeiras alagoanas quando praticam seu ofício. Iniciam com uma primeira lavada, molhando, torcendo, molhando novamente, voltando a torcer. Adicionam anil, ensaboam e torcem outras vezes, para então enxaguar; dão outra molhada, batem, torcem, até não mais pingar uma só gota. Varia o método adotado por cada escritor, mas seu objetivo é claro: trata a palavra com esmero, para obter um elo de compreensão com seus leitores. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.

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