Opinião
Houdini tupiniquim
Se você, pacientíssimo leitor, me permitir, farei uma crítica ao presidente Lula. E, encarecidamente, suplico-lhe: não me tome por um ressentido ? motivo não tenho ? ou, pior ainda, por um invejoso. De antemão esclareço que dificilmente teria inveja da posição do nosso líder supremo e denodado, audaz timoneiro dos destinos da nossa altaneira, briosa e progressista Nação. Ser obrigado a conviver e agradar, por conta dos seus afazeres, bufões incensados e vaidosos, figuras asquerosas e senhores decrépitos como Sarney e assemelhados é, convenhamos, tarefa para os municiados com um fígado de pedra. Eu, no lugar dele, convocaria imediatamente a mais indesejada das gentes para levar-me, de roldão, à barca de Caronte. Porém, deixemos de lado as coisas vãs, sem importância, e vamos ao que interessa. Você deve estar lembrado das rigorosas críticas que o Lula sofreu quando decidiu tocar adiante as obras de transposição das águas do São Francisco. Uma das críticas mais severas e difíceis de responder era a de que ?como poderíamos transpor água para lugares tão distantes quando ainda tínhamos aqui mesmo, na bacia do São Francisco, nordestinos sem água potável e sem irrigação??. Outra era a de que ?como poderíamos retirar mais água de um rio que já está moribundo??. A própria ANA (Agência Nacional de Águas), órgão oficial do governo, elaborou um trabalho denominado de Atlas Nordeste. O estudo da ANA mostra que o drama da seca pode ser reduzido com investimentos da ordem de R$ 3,6 bilhões, atendendo a 1.356 municípios em nove Estados e beneficiando 34 milhões de nordestinos. Já a transposição das águas do São Francisco, defendida ardorosamente pelo governo Lula, custará R$ 6,6 bilhões (quase o dobro da proposta da ANA) e atenderá somente a 391 municípios em quatro Estados e a apenas 12 milhões de pessoas. Diante das críticas, o que fez o mágico Lula? Para aplacá-las, prometeu, ao tempo em que acelerava as obras de transposição, injetar, por meio do PAC, recursos para projetos de recuperação ambiental do São Francisco para recuperar suas vazões. Resultado da mágica do nosso Houdini tupiniquim: enquanto as obras de transposição são levadas avante em ritmo aceleradíssimo, o programa de revitalização do Rio São Francisco naufraga. O último relatório do PAC mostra que dos R$ 442,7 milhões previstos no orçamento federal deste ano para recuperação do rio, apenas R$ 71 milhões foram empenhados, dos quais foi efetivamente pago R$ 1 milhão. Lula, tal qual o mágico Houdini, nos engabelou novamente. (*) É engenheiro da Casal.