loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
domingo, 26/07/2026 | Ano | Nº 6275
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Comportamento

A tirania de ter que ser interessante

Ouvir
Compartilhar

Há um novo imperativo silencioso organizando a vida contemporânea: é preciso ser interessante o tempo todo. Não basta existir — é preciso render; não basta viver — é preciso gerar narrativa; não basta sentir — é preciso transformar a experiência em algo compartilhável, admirável, desejável. A vida deixou de ser vivida para ser constantemente editada. O sujeito contemporâneo já não sofre apenas por aquilo que lhe falta, mas por aquilo que não consegue performar. Há uma ansiedade difusa que atravessa as relações, o trabalho e o lazer: a sensação de que, a qualquer momento, podemos nos tornar irrelevantes, como se a existência precisasse, a cada instante, justificar sua permanência no mundo.

E isso cansa — mas é um cansaço que não se resolve com descanso, porque não vem apenas do excesso de tarefas, mas do excesso de exposição. Mesmo o tempo livre foi capturado por essa lógica: ele já não é vivido como pausa, mas como oportunidade de produzir uma versão interessante de si. Descansar, hoje, parece exigir também uma estética. O olhar que antes vinha de fora agora foi internalizado; carregamos conosco um espectador permanente que avalia, compara, corrige, descarta. Nunca estamos simplesmente presentes — estamos sempre, de algum modo, nos assistindo.

A psicanálise nos ajuda a nomear esse mal-estar ao lembrar que o desejo nasce da falta, e não da performance. No entanto, o que vemos é uma tentativa contínua de preencher qualquer vazio com produção: mais imagens, mais ideias, mais opiniões, mais versões de si. Como se o silêncio fosse um erro a ser corrigido.

Mas o silêncio não é falha — é condição. É nele que algo de verdadeiro pode emergir sem a pressão de ser imediatamente compreendido ou validado. É no intervalo, e não na exposição contínua, que o sujeito se encontra.

Shorts Youtube
Play
Joalheiria é alvo de assalto em plena luz do dia em Teotônio Vilela

Joalheiria é alvo de assalto em plena luz do dia em Teotônio Vilela

Play
Prefeitura remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

Prefeitura remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

Play
Operação prende suspeito de tráfico de drogas em Arapiraca

Operação prende suspeito de tráfico de drogas em Arapiraca

Play
Polícia inicia 6ª fase da Operação Cerco Fechado

Polícia inicia 6ª fase da Operação Cerco Fechado

Play
Ação da Semsc remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

Ação da Semsc remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

Talvez por isso uma das formas mais discretas — e mais radicais — de resistência, hoje, seja justamente recusar essa obrigação de ser interessante o tempo todo. Permitir-se não ter o que dizer, não ter o que mostrar, não ter o que provar. Recuperar o direito de ser banal sem culpa, de viver experiências que não precisam ser convertidas em conteúdo. Porque há algo profundamente humano — e profundamente esquecido — em poder existir sem audiência, em sustentar uma vida que não precisa impressionar para fazer sentido.

Relacionadas