loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
terça-feira, 28/04/2026 | Ano | Nº 6211
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Memória

Quando o golpe encanta

Ouvir
Compartilhar

Há pessoas que parecem caminhar pela vida trazendo consigo uma rara missão: a de encantar o mundo por meio da palavra escrita, transformando inteligência em beleza e reflexão. Entre essas figuras luminosas está o padre João Medeiros, filho de Jucurutu, com marcante atuação em Caicó e, atualmente, radicado em Natal, onde integra o quadro de sócios efetivos da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.

Recentemente, detive-me diante de um texto seu, intitulado Golpe: significado e abrangência. A leitura, dessas que nos prendem pela lucidez, revela que a palavra “golpe” possui sentido muito mais vasto do que aquele normalmente limitado às disputas ideológicas ou políticas.

Concluída a lição, permaneci em silêncio, remoendo mentalmente as incontáveis aplicações daquela palavra tão curta quanto expressiva. E, como costuma ocorrer quando a memória desperta, fui levado aos tempos em que o esporte ocupava lugar central em meus dias.

Na juventude, vivi intensamente o futebol. Defendi metas no Colégio Marista, no time do curso de Engenharia Civil e na seleção da Universidade Federal de Alagoas, disputando competições nacionais, entre elas uma inesquecível jornada em Natal. Ser goleiro era conviver com a solidão heroica de quem carrega a última esperança de uma equipe.

E foi então que compreendi outra face da palavra “golpe”. Em muitas ocasiões, eu e meus companheiros fomos salvos por golpes perfeitos que executei. Não aqueles de força bruta, tampouco de acaso. Eram gestos construídos por treino, leitura do lance e serenidade. Refiro-me ao célebre golpe de vista.

Quantas vezes permaneci imóvel, sem a necessidade de voar dramaticamente em direção à bola, apenas acompanhando seu trajeto com os olhos e a convicção de que seguiria para fora, longe das redes! Enquanto a torcida prendia a respiração, eu confiava no cálculo silencioso entre experiência e instinto.

Desde então, aprendi que a mesma palavra pode ferir ou salvar, destruir ou proteger, humilhar ou consagrar. Tudo depende das mãos, ou dos olhos, de quem a utiliza.

Relacionadas