Opinião
Do n�o querer ser deputado
Em artigo recentemente publicado na imprensa paulista, o escritor Ruy Castro relembra-nos Rubem Braga que escrevera belíssima crônica intitulada O conde e o passarinho, transformada posteriormente em livro com o mesmo atraente título. Ali o grande prosador capixaba afirmara: ?Não quero ser conde?, e assim pautara a sua vida buscando outros desideratos. Ruy Castro esclarece: ele mesmo, com igual determinação , também tomara decisão semelhante ao deliberar que, fossem quais fossem as circunstâncias, não desejaria vir a ser príncipe, muito menos o de Gales, preferindo ser o cidadão que é. Desnecessário é dizer, ambos os renomados escritores foram muito bem-sucedidos em seus sábios e ponderados objetivos de vida! Tais considerações faço-as a propósito de que, nesse mesmo espaço jornalístico, escrevi despretensioso artigo no qual avisava aos meus familiares mais próximos, a alguns amigos e aos meus irredutíveis quase dez eleitores, a minha irrevogável decisão de não querer ser deputado, vereador ou senador. Volto ao tema uma vez que, para minha surpresa e satisfação, o referido artigo, bem mais do que o esperado, trouxe-me imprevistas e diferentes manifestações por telefonemas, e-mails e amáveis tapinhas nas costas, evidenciando assim o poder de alcance da página ?Opinião?. Aliás, duas de tais manifestações chegaram a ser publicadas em nossa imprensa, o que não é pouco, parece-me. Ora, vejamos: além da inesperada repercussão, surpreende-me a circunstância de que minha pretensão era apenas mais uma vez evidenciar o meu descontentamento, a minha inominável revolta para com os descaminhos da democracia brasileira, particularmente quanto aos escândalos sórdidos e consecutivos que enodoam particularmente o Poder Legislativo, porém com lamentável e indiscutível extensão para o Executivo e o Judiciário. Não importava a minha jocosa afirmação, na verdade um transparente gracejo, de não querer ser deputado ou o que mais. Tal coisa, no contexto do meu escrito, era absolutamente irrelevante. Partisse de alguém com militância político-partidária, aí sim, teria importância tão indestrutível decisão. Questiono, como alguns (políticos ou não) já o fizeram: qual o sentido de ser deputado, vereador ou senador, se o Legislativo brasileiro não tiver condições de tratar adequadamente a situação vexatória em que se encontra e em que se afunda? Será irrisório e indigno aos olhos da História. Por outro, quem poderia, mesmo imbuído dos melhores propósitos, modificar substancialmente o que ali está sedimentado por decênios de impatriótico desvirtuamento? Tal é o descrédito do sistema político-administrativo do Brasil que respeitável senador pernambucano de importância nacional, chegou a dizer (e logo depois a desdizer), ?melhor seria fechar o Senado?, numa afirmação impensada e até perigosa para a nossa conturbada democracia. (*) É médico e professor da Uncisal.