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SAÚDE

Pare de colecionar remédios

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Se há uma habilidade que definitivamente não faz parte da minha formação é prever o futuro e, para ser sincera, nunca fui adepta de quem diz fazê-lo. Ainda assim, existe um momento do dia em que as previsões se tornam quase inevitáveis: no consultório.

Antes mesmo de abrir a lista de medicamentos, já é possível antecipar um padrão bastante frequente: um, dois, três… por vezes, uma verdadeira coleção de comprimidos em uso diário. Não se trata de coincidência, mas de um fenômeno cada vez mais comum na prática clínica.

Chamamos isso de polifarmácia: o uso simultâneo de múltiplos medicamentos. Com a onda de suplementos e vitaminas “indispensáveis” à saúde e ao envelhecimento saudável, pouca gente tem escapado a essa prática.

Não bastasse o acúmulo de patologias que pode ocorrer com o avanço da idade, a automedicação surge como um fator adicional que contribui para agravar e ampliar esse cenário.

Nesse contexto, o uso de muitos medicamentos não é um desafio apenas pela quantidade, mas também pelos riscos envolvidos. A combinação de diferentes substâncias pode provocar interações, aumentando a chance de efeitos colaterais ou reduzindo a eficácia dos tratamentos.

Por isso, o cuidado não depende apenas do médico. Nem sempre é possível ter acesso a tudo o que o paciente utiliza, principalmente quando há automedicação. Informar corretamente tudo o que está em uso é uma atitude simples, mas que faz muita diferença na segurança do tratamento.

A medicina conhece bem os riscos que envolvem interações medicamentosas. Como dito, uma substância pode anular, reduzir ou mesmo potencializar os efeitos de outra, tornando seu uso ineficaz ou até mesmo perigoso. Frequentemente, nos deparamos com pacientes idosos que sofrem intoxicações ou efeitos colaterais indesejados, provocados por combinações inapropriadas.

São comuns quadros de confusão mental, vertigem, variação da pressão, problemas renais ou hepáticos, azia ou refluxo, perda de equilíbrio e sonolência — sintomas que prejudicam o dia a dia.

Quando nos deparamos com esse cenário, a medida imediata é avaliar os medicamentos e suplementos em uso e a real necessidade de cada um — sendo, por vezes, necessária a interrupção ou substituição de alguns deles.

É verdade que cada prescrição visa controlar um problema de saúde, mas o profissional geriatra é aquele que não perde o olhar sobre o paciente como um todo e compreende o impacto e os riscos de cada medicamento sobre a saúde global da pessoa.

O objetivo não é reduzir simplesmente o número de medicamentos em uso, mas garantir que cada um deles tenha uma indicação clara, segura e alinhada às necessidades do paciente. Quando bem indicados, revisados periodicamente e utilizados de forma correta, os medicamentos cumprem seu verdadeiro papel: melhorar a vida, preservar a funcionalidade e promover vitalidade. Mais do que tratar doenças, trata-se de cuidar da pessoa como um todo, com estratégia, segurança e propósito.

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