Opinião
Empate t�cnico
RONALD MENDONÇA * Mestre sem cátedra de diferentes gerações de médicos de Alagoas, o livre pensador Dirceu Falcão apreciava fazer comentários e profecias sobre temas diversos, da política ao futebol. Personalidade forte, exercia invulgar fascínio na estudantada de medicina que nele enxergava, com razão, inigualáveis oportunidades de aprendizado com quem, efetivamente, gostava do que fazia. Nascido primo de sangue do monumento vivo da medicina alagoana, professor Ib Gatto - o maior de todos nós, Dirceu foi provavelmente seu mais brilhante assistente. Inteligente e culto, DF ou ?Canelinha? como era chamado pelos mais íntimos, causava melindres por conta dos destemperos verbais ?não economizava adjetivos àqueles com quem dardejava - mas, sobretudo, por peculiar modus vivendi, distante anos-luz dos costumes reinantes. Certa vez, numa rodada de cafezinho, quando se discutia o futuro da medicina, afirmou meio em blague que, do jeito que as coisas estavam caminhando, muitos dos presentes ainda veriam médicos na condição de copeiros domésticos. (Estava ?fresquinha? a sentença do coronel Passarinho, ministro da Educação da ditadura, de que teria médicos ?a preço de banana?). Os anos se passaram, Dirceu partiu mais cedo e os tempos de chumbo também ficaram para trás, embora muitos dos seus métodos e postulados teimem em permanecer. De qualquer modo, nas duas últimas eleições para presidente a população teve a chance de escolher entre dois candidatos de esquerda, ficando com o que parecia mais preparado e menos radical. Decepção. O sociólogo, como na canção, não fez o que prometeu e o País, sacudido por sucessivos esquemas de assalto aos cofres públicos, além de desemprego, violência, dívida monstruosa, saúde escangalhada, dentre tantas outras mazelas, e às portas de uma nova eleição, encontra-se numa sinuca de bico. Como a época é adequada para promessas, já há candidato jurando que elevará o salário mínimo para 100 dólares, o que daria, por enquanto, R$ 320,00 (esta semana o dólar chegou a 3,60), que é o que será pago aos empregados domésticos. Reparem que esses valores não ficam muito abaixo dos 187 dólares, convertidos, que os médicos, hoje, recebem dos municípios. Trocando em miúdos: os médicos podem ainda não estar trabalhando nas cozinhas dos mais abastados, mas com um pouco mais de esforço das autoridades os salários ficarão parelhas. É. Parece até que Dirceu adivinhava. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL