Opinião
Refor�ar os instintos sociais
Quando sugerimos ideias para eventuais reformas políticas, muitas vezes esquecemo-nos de uma questão inexorável: o homem tem como objetivo único a satisfação dos seus desejos. Como, então, evitar que os desígnios desse homem subtraiam os direitos de outrem? Exigir o cumprimento da lei seria a solução natural, mas, ao permitir que os governantes participem da escolha dos seus próprios fiscais e/ou julgadores, nossa sociedade impede que a força da justiça seja exercida. Não menos pior é aceitar, pelas vias do financiamento eleitoral, a promiscuidade ou a mistura de interesses entre o setor público e o privado. Essas permissividades têm estimulado a corrupção, a impunidade e a subtração de direitos. Portanto, o nosso modelo democrático é fraco para defender os interesses coletivos. Precisamos reformá-lo. Neste sentido, reflitamos sobre a lição do filósofo holandês Baruch Espinosa: ?Os instintos sociais são mais tardios e mais fracos do que os individuais e precisam de reforços?. Um desses reforços seria impedir que o poder econômico, que almeja o lucro individual (e não há nada de errado nisso) doasse recursos para financiar eleições políticas. Claro que de alguma forma essas doações serão devolvidas com o dinheiro público, e isso, sim, é inadmissível. Queremos mudanças, mas as ideias apresentadas são pífias. Cogita-se que o orçamento da União financie as eleições. Quer dizer, então, que as receitas obtidas com os impostos que paguei irão contribuir para a eleição de candidatos nos quais eu jamais votaria? Isso é lastimável! Como são lentos os instintos sociais! Esquecemos que só há uma forma lógica e sensata para financiar as eleições políticas, qual seja, por meio das contribuições partidárias recebidas mensalmente dos seus afiliados. Fixaríamos um teto e só seria permitido contribuir para uma ideologia. Outro reforço importante vai na contramão daqueles que sugerem reduzir a ação do Ministério Público e da Polícia Federal. Ora, diante da triste realidade política que aí está, imagine o que seria de nós, pobres contribuintes, se essas ideias fossem aprovadas! Em última análise, estas instituições foram criadas para evitar que os recursos do social venham satisfazer instintos individuais, portanto, precisamos torná-las ainda mais independentes. Se quisermos realmente uma sociedade mais justa, não podemos ser tolerantes com os ladrões, pois, se não houver punição para eles, todos nós, inclusive filhos e netos, poderemos nos transformar em corruptos do amanhã. (*) É contador.