Opinião
O Iraque de Alagoas
A revista Veja deu destaque para os índices de homicídios e roubos que explodem na região nordestina, mesmo com significativa melhora nos indicadores sociais, contrariando a norma que assinala para a proporcionalidade entre desenvolvimento econômico e segurança. Ainda na matéria, Maceió é destacada como a capital mais insegura do Nordeste, com taxa de 104 homicídios por 100.000 habitantes, índice superior ao apresentado pelo Iraque que enfrenta todos os problemas inerentes a um pós-guerra. Os números são contestados pelos gestores da segurança pública, que apontam para uma taxa menor com tendência de redução, mas trouxeram uma novidade ? muita gente externando que segurança não é apenas problema de polícia, aí incluído o novo presidente do Conselho Estadual de Segurança Pública. Mesmo não sendo a única responsável, a atuação policial tem contribuído e muito para a obtenção dos índices iraquianos. Os índices da capital se estendem aos municípios vizinhos e aos grandes centros urbanos de outras regiões. Em Marechal Deodoro, o maior complexo habitacional é conhecido por Iraqu. A denominação não ocorrera por acaso. Lá se mata muito. Os moradores do Iraque alagoano fazem questão de afirmar que a polícia não aparece por lá, os criminosos dizem que polícia não entra, o que representa grande desafio para os gestores locais da segurança pública. As ruas do Iraque são escuras e esburacadas, as escolas não funcionam em tempo integral, e a polícia aparece apenas para recolher corpos, entregar notificações para testemunhas e colher o que restou de preservado em local de crime cheio de jovens curiosos que não mais se chocam com a violação da dignidade humana. A grande maioria dos homicídios no Iraque guarda relação com o uso e tráfico de drogas, o que requer muito esforço para convencer testemunhas a documentar suas informações em inquérito policial, por temer represálias de traficantes ali instalados. A consequência mais óbvia é que os inquéritos vão se acumulando e são remetidos à Justiça sem a indicação de autores, maximizando a sensação de insegurança e impunidade. O Iraque da terra dos marechais poderia se tornar um laboratório para a segurança pública, com definição de metas para os gestores locais na redução dos índices de homicídios, integração das ações policiais, operações de inteligência para desestruturar grupos de narcotraficantes e controlar o funcionamento de bares e diversões públicas e assegurar o acesso e permanência de alunos nas escolas. (*) É delegado de Polícia Civil.