Opinião
Caridade na verdade
Atualização dos ensinamentos da encíclica de Paulo 6º ?Populorum Progressio? é o que caracteriza, como motivação, a nova e 3ª encíclica de Bento 16, ?Caritas in veritate?. Em três pontos resume ?L?Osservatore Romano? o novo documento pontifício. Em síntese, ele propõe que haja mais ética nas relações financeiras; um pouco de gratuidade como antídoto à lógica do lucro desenfreado e boa injeção de solidariedade nos mecanismos do mercado. Não se trata de receita milagrosa ? esclarece o jornal ? nem muito menos de pretensão dogmática da Igreja. Bento 16, no dia seguinte ao lançamento de sua encíclica, comentou que este documento inspira-se, em sua visão fundamental, no texto da Carta Paulo aos Efésios: ?Praticando a verdade na caridade, cresceremos sob todos os aspectos na direção daquele, que é a Cabeça, Cristo? (4, 15). ?A caridade na verdade, diz papa, é a principal força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. Só com a caridade, iluminada pela razão e pela fé, é possível alcançar objetivos de desenvolvimento dotados de valor humano e humanizante. A caridade na verdade ? diz a encíclica ? é um princípio, ao redor do qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha força operativa em critérios orientadores?? (nº 6) Os títulos dos capítulos indicam-nos sumariamente os assuntos tratados. Na introdução, o santo padre afirma com vigor: ?Na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida?. A verdade é a luz que dá sentido e valor à caridade. Essa luz é simultaneamente a luz da razão e da fé. O 1º capítulo é uma atualização da ?Populorum Progressio?. No 2º capítulo, o papa trata do desenvolvimento humano no nosso tempo e cita algumas de suas características, como o crescimento da riqueza mundial em termos absolutos, unido ao aumento da desigualdade, a mobilidade laboral desregulamentada, provocando degradação da dignidade humana, além do desperdício de força social. A encíclica proclama que o primeiro capital a preservar é o homem na sua integridade. O capítulo trata ainda da alimentação e do acesso à água como direito universal de todos. O capítulo 3º mostra como na sociedade civil, fraternidade e desenvolvimento econômico devem andar juntos. O capítulo 4º é dedicado ao desenvolvimento dos povos com seus direitos e deveres. Neste capítulo, o documento papal trata ainda da preservação do ambiente, tendo a natureza como dom do Criador e prova de seu amor pela humanidade. (*) É arcebispo emérito de Maceió.