Reflexão
Uma luta contra os muros invisíveis
No dia 18 de maio, o Brasil celebra o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, data que simboliza um marco histórico, ético e civilizatório na defesa da dignidade humana, da liberdade e do direito ao cuidado em saúde mental realizado em comunidade.
Durante séculos, a loucura foi tratada sob a lógica da exclusão. Os hospitais psiquiátricos afastavam as pessoas do convívio social, reduzindo suas existências à condição de doença. O isolamento, a perda de vínculos e a negação da cidadania marcaram a vida de milhares de pessoas submetidas ao modelo manicomial.
Foi justamente contra essa realidade que surgiu a Reforma Psiquiátrica Brasileira, impulsionada pelos movimentos sociais e pelos trabalhadores da saúde mental, no fim dos anos 1970. Inspirada em experiências internacionais de desinstitucionalização, a reforma passou a defender o fechamento progressivo dos manicômios e a construção de novas formas de cuidado, baseadas na liberdade, no território e nos direitos humanos.
A aprovação da Lei 10.216/2001 consolidou importantes mudanças no modelo assistencial em saúde mental, fortalecendo uma rede substitutiva de atenção psicossocial. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) tornaram-se um dos principais dispositivos desse cuidado, oferecendo acompanhamento contínuo às pessoas em sofrimento psíquico.
Entretanto, a Reforma Psiquiátrica não se resume aos CAPS. Ela possibilitou a criação de uma rede mais ampla, composta também pelos Serviços Residenciais Terapêuticos, destinados a pessoas que viveram longos períodos de institucionalização; pelos Centros de Convivência e Cultura; pelas equipes de saúde mental na Atenção Primária; pelos leitos em hospitais gerais; pelas oficinas de geração de renda; pelos programas de inclusão social, como o Programa De Volta para Casa; além das associações de usuários e familiares, fundamentais na defesa de direitos e no fortalecimento do protagonismo social.
Essa nova perspectiva compreende que o cuidado em saúde mental não deve se limitar ao tratamento da doença, mas considerar o sujeito em sua história, seus afetos, vínculos e modos de viver. Cuidar em liberdade significa construir possibilidades concretas de participação social, autonomia e pertencimento.
Em Alagoas, assim como em diversas regiões do país, a construção desse novo modelo de cuidado foi marcada por desafios, resistências e importantes conquistas. A ampliação dos serviços substitutivos permitiu que muitas pessoas, antes submetidas apenas à lógica da internação, passassem a experimentar novas formas de convivência, cuidado e inserção social. Ao mesmo tempo, persistem dificuldades estruturais, insuficiência de investimentos, fragilidade das redes de cuidado e permanência de práticas ainda marcadas pela lógica manicomial.
Por isso, o 18 de maio continua sendo um dia de luta. Luta pela defesa do SUS, pela valorização das políticas públicas de saúde mental e pela garantia de um cuidado humanizado, territorial e comunitário. Mais do que fechar manicômios físicos, a Luta Antimanicomial nos convoca a derrubar os muros invisíveis do preconceito, da intolerância e da exclusão.
Afinal, uma sociedade democrática também se mede pela forma como cuida de seus sujeitos mais vulneráveis.