Opinião
A maltratada mem�ria
Humberto Eco é um intelectual extraordinário. Tornado best-seller por seu livro O Nome da Rosa que recebeu uma vigorosa versão cinematográfica, tendo Sean Connery no papel do monge franciscano Guilherme Baskerville, é autor de outras obras de fôlego, entre elas A chama da rainha Loana; nesta, mas uma vez consegue unir conhecimento histórico com as atribulações da atualidade; discute questões éticas, como a eterna disputa entre o bem e o mal; preserva o prazer de ler e propicia que nos aflorem as emoções em cada página virada. O tema da Rainha Loana é atual: um homem próximo dos 60 anos, livreiro de obras raras e valiosas, sofre um acidente e ao retornar a consciência em um hospital perdeu totalmente a memória: encontra-se ao lado de uma mulher madura e bonita, que lhe é totalmente estranha, mas trata-se de sua esposa com quem convive há mais de 30 anos. Logo depois entram as suas duas filhas e seus netos e para ele são com se nunca os tivesse visto. Recuperado fisicamente, retira-se para uma antiga casa de campo da família, onde solitário, acompanhado somente por uma antiga empregada doméstica, luta para recuperar a memória através do contato com as coisas que lhe foram familiares durante toda a sua vida: objetos, discos, jornais, revistas, estampas e livros antigos que pertenceram a seu avô, seu pai e povoaram a sua infância. É comovente como o personagem Yambo, devora velhas revistas que lhe foram fiéis companheiras juvenis, entre elas Mickey, Fantasma, Mandraque e Sobrinhos do Capitão, logo as recordando integralmente, sem entretanto conseguir recuperar a sua própria memória.Na obra,toda ilustrada, também vamos fazendo uma rememoração pessoal. A preservação da memória é um dos maiores patrimônios da humanidade, daí, ser estranho que a ministra Dilma Roussseff ? mantendo o debochado padrão do Planalto -- não se lembre dos assuntos tratados com a ex-chefe da Receita Lina Vieira, que visavam beneficiar pecuniariamente o clã Sarney; provavelmente não lembrará também de fato recente muito mais grave do qual co-participaram: as vitoriosas manobras da Petrobras para não recolher impostos devidos à Receita, razão maior da demissão de Lina. A recuperação da memória na obra de Eco é uma forma de o autor manifestar o seu amor pela vida, o respeito pelas instituições e fundamentos que cercam o ser humano. Em Brasília, a memória falha é mais uma artimanha do jogo político mais brutal e desavergonhado, onde não existe amor, nem respeito ou compromisso com a história. (*) É médico e professor da Uncisal.