Opinião
Perigosa briga de madames
Em meio a grandes questões nacionais, uma briga particular ganha as ruas, toma corpo e ensombra a futura candidatura de Dilma Rousseff. Embora sem ser, o cheiro é de uma baita fofoca. Com efeito, enquanto o Senado expõe as tripas de forma ridícula e grotesca, as senhoras Lina e Dilma, ex-secretária da Receita Federal e ministra da Casa Civil, travam luta que promete render dividendos. Enquanto uma detém o poder, a outra possui a informação. Uma afirma, a outra nega até sob tortura. Lina Vieira, funcionária de carreira da Receita Federal, pertence a um órgão que chupa as carótidas do cidadão, com especial zelo aquelas da classe média. Ouço dizer que o Imposto de Renda é o maior portal de redistribuição da riqueza. Serviria, dentre outras coisas, para financiar o perfeito funcionamento da Justiça, da saúde pública, do ensino e da segurança. É com o suado dinheirinho do contribuinte que nossas honradas Casas Legislativas cumprem com denodo o seu dever constitucional de trabalhar em prol do bem comum. De quebra, lubrifica o Bolsa Família, a UNE, as ONGs, o Movimento dos Sem-Terra e outros que tais. Enfim, o imposto destina-se a todas essas coisas maravilhosas que a gente vê e usufrui. Lina Maria Vieira, que até há pouco tempo estava no topo da Receita Federal, planejava, segundo suas palavras, parar de pegar no pé de assalariados. Seu foco estava nas grandes empresas: Petrobras era uma delas. Teria caído justamente por isso. Madame Dilma Rousseff, antes de qualquer coisa (valha-nos Deus!), quer ser presidente da República. Forjada no jogo pesado da ?guerrilha? e nos assaltos aos cofres alheios, é um trator guindado a um posto de quase primeira-ministra. Temida pelo medonho humor que a tornaria insuportável, não é a primeira vez que Rousseff é surpreendida utilizando expedientes pouco ortodoxos. No auge da crise das orgias com os cartões corporativistas, por exemplo, repeliu (sem convencer) a acusação de maquiar e divulgar dossiê contra a ex-primeira dama Ruth Cardoso, até então uma pessoa insuspeita. A verdade é que, ao contrário da iracunda ministra, pouco se sabe sobre o caráter da funcionária do fisco. Certamente magoada pela destituição, dona Lina pôs a boca no trombone anunciando encontro secreto no qual a ministra Dilma teria induzido tratamento vip para as empresas do enroladíssimo filho de José Sarney. A reiterada negação do fato faz crescer o mistério e potencializa sua gravidade. (*) É médico e professor da Ufal.