Reflexão
Pandemia ainda mais grave
Em 12 de março de 2020, em São Paulo, ocorreu a morte de Rosa Aparecida Urbano, diarista de 57 anos. Ela foi a primeira vítima registrada oficialmente da pandemia de Covid-19 no país. Desde então, 12 de março foi instituído como o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19. Não existe um de nós que não tenha perdido um ente querido, próximo ou remoto, entre os 700 mil que se foram sob o negacionismo do governo Bolsonaro. O fator complicador dessa tragédia é que a Organização Mundial da Saúde (OMS) refez recentemente suas avaliações e, ao final, emitiu um relatório em que chegou a um número três vezes maior de vítimas e mortes.
Segundo a OMS, a pandemia de Covid-19 está ligada a 22,1 milhões de mortes, o triplo do número oficialmente notificado: “Isso implica que, para cada morte por Covid-19 reportada, houve cerca de duas mortes adicionais em excesso relacionadas à pandemia. Essa constatação destaca tanto a subnotificação de mortes diretamente causadas pelo vírus quanto as mortes indiretas impulsionadas por interrupções nos cuidados de saúde, desafios econômicos e outros fatores sociais durante esse período”, afirma o relatório.
O relatório Estatísticas Mundiais de Saúde 2026 mostra que as mortes em excesso atingiram o pico em 2021, com 10,4 milhões de óbitos a mais que o esperado, o que representa um incremento de 17,9%. De acordo com o documento, isso ocorreu “principalmente devido ao surgimento de variantes mais letais do coronavírus, como a Delta, e ao estresse substancial sobre o sistema de saúde”. Depois, com a vacinação, esse número caiu para 3,3 milhões.
O novo documento explica ainda o motivo de somente agora, em 2026, os dados de 2020 a 2023 terem sido consolidados. O relatório destaca grandes lacunas de dados sobre mortalidade entre os países, fazendo com que, até o final de 2025, somente 18% das nações tivessem enviado informações à OMS dentro do prazo de um ano. Apenas um terço dos países atende aos padrões do órgão sanitário para dados de mortalidade de alta qualidade, enquanto cerca da metade possui dados de baixa ou muito baixa qualidade, ou sequer os possui. Por isso, a análise demora para ser concluída e envolve métodos estatísticos para estimar as informações ausentes.
Para Alain Labrique, diretor do Departamento de Dados, Saúde Digital e Inteligência Artificial, essas lacunas “limitam severamente a capacidade de monitorar tendências de saúde em tempo real, comparar resultados entre países e desenhar respostas eficazes de saúde pública”. Ainda assim, ele destaca a importância da divulgação dos novos dados.
Com este relatório, é a primeira vez que conseguimos ver o alcance temporal completo da pandemia de Covid-19. Vemos também que a pandemia reverteu quase uma década de ganhos globais na expectativa de vida. Antes da pandemia, a expectativa de vida global ao nascer vinha aumentando de forma constante desde o início do século XXI, passando de 67 anos, em 2000, para 73 anos, em 2019. No entanto, a Covid-19 reverteu essa tendência, “apagando quase uma década de progresso em apenas dois anos”. A expectativa de vida global ao nascer caiu para 71 anos em 2021, retornando a níveis vistos pela última vez em 2011. A vacinação precisa ser ampliada e mantida.