Opinião
Acordei cedo hoje
Acordei cedo hoje. Fui ao ponto do ônibus e fiquei a observar como nosso povo é educado e ordeiro. Havia uma fila na qual se respeitava os idosos, os ônibus todos passavam nos seus horários, pois, em cada terminal, um educadíssimo guarda faz o embarque dos passageiros e só autoriza a saída depois que todos os assentos estão ocupados. Não se pode viajar em pé em nossas linhas por questão de segurança. Após muitos anos, aboliram o curral que havia entre a porta de entrada e a roleta. Agora, os idosos e passageiros especiais entram e escolhem seus assentos. Não ficam mais entalados, viajando como gado indo ao matadouro. Os motoristas, muito bem treinados, não dão mais aquelas freadas e arrancadas bruscas que muitas vezes provocavam lesões nos mais distraídos. Enfim, chegou meu ônibus. Subo, escolho um lugar e penso em continuar o trabalho que havia iniciado em casa. No encosto do assento anterior, há um laptop que a empresa instala para uso dos educados passageiros. Puxo o meu pen drive, conecto-o e recomeço o meu trabalho, enquanto escuto uma música ambiente suave. Ali, posso me conectar à internet, todos os ônibus dispõem de ambiente wifi, mais uma cortesia das empresas que veem nessa oferta uma forma de dividir seus lucros com os milhares de passageiros que todos os dias usam o seu serviço. Logo penso: como são civilizados nossos empresários! A viagem pela cidade é tranquila. Não tem engarrafamentos, o ônibus viaja pela faixa da esquerda e, em cada parada, existe uma faixa de pedestres ou uma passarela para quem deseja atravessar para a pista contrária. Na esquina do IZP com a rua da Adefal, tem um ponto de ônibus exclusivo para os deficientes e seus familiares. Com a sua criação, eles deixaram de carregar seus filhos nos braços ou nas costas. Era insuportável ver e rever a cena dezenas de vezes: eles desciam no Cepa e se arrastavam pelas calçadas antes esburacadas até chegarem ao seu destino para fazer suas consultas. Que ideia maravilhosa dos nossos engenheiros de tráfego! O ponto final é na Praça Centenário. Nosso Centro foi tombado e não é mais permitido derrubar prédios históricos nem mexer em sua arquitetura. Carros, ônibus, motos então, nem pensar. Agora temos um minianel viário que circunda a área. Cheguei. Salvei este texto que acabo de escrever e, quando teclo para desligar o laptop, acordo com o barulho de um ciclista que passa aqui na rua, com sua potente caixa de som, anunciando as promoções de um mercadinho daqui das redondezas. (*) É músico profissional.