Opinião
Mortais dias de Hyde
Religião, psicologia, desocupados e curiosos em geral buscam explicações para as diferentes condutas do homem, com frequência díspares e desconcertantes. A própria literatura é plena de personagens que oscilam entre a magnanimidade e a mais promíscua miséria moral. Nessa linha, quase ao apagar das luzes do século 19, o escocês Robert L. Stevenson publicaria o seu ?The Strange Case of Dr. Jekill e Mr. Hyde?, que em português ficou conhecido como O Médico e o Monstro. Muito sucintamente poderia dizer que essas pessoas (Jekill e Hyde) eram uma só. O honrado médico Jekill teve o seu destino transformado quando passou a ingerir em caráter autoexperimental determinada poção química que o transmudava numa outra personalidade, que era o inverso do original. Com efeito, surgia um sujeito irascível, violento, capaz de todas as patifarias do mundo, inclusive a de negar que nomeou o namorado da neta para uma sinecura no Senado Federal. Assim nascia o mito do médico e do monstro cuja imagem a imprensa ressuscita de quando em vez, desde que um esculápio fuja dos seus deveres e enverede pelas fendas da imoralidade. A bola da vez é o mago da Reprodução Roger Abdelmassih que, após denúncias de meia centena de clientes, tem vivido seu ciclo de visita ao inferno, seus dias de Hyde. Escândalos dessa ordem atingindo médicos ferem de morte a profissão. Culpado ou inocente, Abdelmassih nunca mais será o mesmo. Na verdade, ?monstros?, perversos e psicopatas não são apanágios de nenhum ramo específico da atividade humana. Agora mesmo, a sociedade tem acompanhado os ?calvários? do presidente do Senado José Sarney e da ministra Dilma Rousseff. Expostos à mídia, duas das maiores autoridades do País vivem seus momentos de Mr. Hyde, com a ressalva de não terem o passado imaculado do doutor Jekill. O bondoso doutor Sarney tem tentado explicar o seu lado b. Católico fervoroso, seria ótimo que abrisse de vez o saco dos pecados e alcançasse o definitivo perdão, se não dos seus pares, pelo menos o de Deus. O que não seria pouco. A ?mestra? e quase ?doutora? Dilma, antes de ser aclamada presidente da República bem que poderia seguir um rigoroso tratamento geriátrico, ortomolecular, para tentar clarear áreas sombrias de sua memória. Decerto, por conta dessa deficiência, na ministra conviveriam duas personagens antagônicas: Dilma, a extremosa mãe do PAC e Rousseff, a contorcionista das verdades. (*) É médico e professor da Ufal.