Biografia:
ofício e arte
Duzentos e tantos anos dês o aparecimento da palavra nos dicionários, leigos (mesmo indignos, até) teimam em confinar a biografia num senso prosaico: estaria ela, segundo a imagem deles, ao serviço da imortalização dos feitos de heróis e santos.
Inadiável, logo, aspirar-se a ir adiante da trivial e bronca significação.
O exercício biográfico não se reduz a louvaminha; às congratulações via louros; ao venerável; aos gozos de suas personagens centrais.
Melhor: ultrapassa a escritura acerca da vida de alguém.
O enquadramento de pessoas traduz-se em espécie de um gênero mais abrangente.
Afinal, podem ser objeto da criação biográfica manifestações culturais, instituições, conceitos, crenças, técnicas, grupos sociais, uma nação.
Assim, inexiste isso de hierarquia temática; o método de análise, par da sensibilidade, (des)legitimará assuntos.
Quem acertou foi Jorge de Lima (1893-1953): “mesmo o maior canto é / denominado – Biografia”, alarga o grã-poeta na abridura de “Invenção de Orfeu” (1952), sua, quiçá, obra-mestra.
Aos biógrafos, caberia um olhar oblíquo de perspectivas. Sim. Ciência ou arte, todavia, e sem hesitar, ofício, requer-se dos seus escritos ponderação entre o vero e a criatividade.
No seu clássico manual (oitentão) “A verdade na biografia” (1945), Luiz Viana Filho (1908-1990) – o nosso André Maurois (1885-1967); “mestre na arte-ciência desse gênero”, eleva-o Gilberto Freyre (1900-1987) –, pontua constituírem ao menos cinco as modalidades de biografias:
(1) Simples relação cronológica dos acontecimentos;
(2) Panorâmica de contextuação histórica;
(3) Apreciação crítica das obras do protagonista;
(4) Descrição pura da vivência (indulgente a intuições, mas sob controle, quanto à dimensão da natureza humana);
(5) Pretexto de se tomar a existência como inspiração pra prosa ficcional.
Ora, ao contrário de excludentes “ous”, e unicamente afora, porventura, a última técnica, acreditamos nos “es” aditivos: bem poderiam se combinar fatos, conjuntura, criticidade e pitadas de psicologia.
Apenas aconselharíamos substituir-se a fantasia pelo estilo sóbrio, seguro, elegante, ensaístico, senhor, enfim, de personalidade.
Em livro já da madureza, “A vida de Eça de Queiroz” (1984), o biógrafo do Barão do Rio Branco (1845-1912), de Ruy Barbosa (1849-1923), Nabuco (1849-1910), Machado (1839-1908), Alencar (1829-1877) e Anísio Teixeira (1900-1971) quase condenará a imaginação quando do tentâmen de se reconstituir uma trajetória.
Se há vidas tão curiosas e perto de mágicas, por si mesmas dispensadoras das lucubrações, nenhum de nós, autores, estamos imunes de todo, porém, ao devaneio. (Inevitável, aliás, enamorarmo-nos um pouco dos nossos temas).
Longe estou, com tal assertiva, de defender, contudo, o sacrifício da honestidade ético-mental em favor da deturpação pelas conveniências pessoais (inclusive passionais).
A (ilusória) busca da “verdade” deve (ainda) guiar a sinceridade autoral, conquanto nem sempre consigamos escapar aos exageros, paradoxos, faltas, sentimentos, sereias, gostos, contumácias... nas construções do intelecto.