loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
segunda-feira, 01/06/2026 | Ano | Nº 6235
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Biografia:

ofício e arte

Ouvir
Compartilhar

Duzentos e tantos anos dês o aparecimento da palavra nos dicionários, leigos (mesmo indignos, até) teimam em confinar a biografia num senso prosaico: estaria ela, segundo a imagem deles, ao serviço da imortalização dos feitos de heróis e santos.

Inadiável, logo, aspirar-se a ir adiante da trivial e bronca significação.

O exercício biográfico não se reduz a louvaminha; às congratulações via louros; ao venerável; aos gozos de suas personagens centrais.

Melhor: ultrapassa a escritura acerca da vida de alguém.

O enquadramento de pessoas traduz-se em espécie de um gênero mais abrangente.

Afinal, podem ser objeto da criação biográfica manifestações culturais, instituições, conceitos, crenças, técnicas, grupos sociais, uma nação.

Assim, inexiste isso de hierarquia temática; o método de análise, par da sensibilidade, (des)legitimará assuntos.

Quem acertou foi Jorge de Lima (1893-1953): “mesmo o maior canto é / denominado – Biografia”, alarga o grã-poeta na abridura de “Invenção de Orfeu” (1952), sua, quiçá, obra-mestra.

Aos biógrafos, caberia um olhar oblíquo de perspectivas. Sim. Ciência ou arte, todavia, e sem hesitar, ofício, requer-se dos seus escritos ponderação entre o vero e a criatividade.

No seu clássico manual (oitentão) “A verdade na biografia” (1945), Luiz Viana Filho (1908-1990) – o nosso André Maurois (1885-1967); “mestre na arte-ciência desse gênero”, eleva-o Gilberto Freyre (1900-1987) –, pontua constituírem ao menos cinco as modalidades de biografias:

(1) Simples relação cronológica dos acontecimentos;

(2) Panorâmica de contextuação histórica;

(3) Apreciação crítica das obras do protagonista;

(4) Descrição pura da vivência (indulgente a intuições, mas sob controle, quanto à dimensão da natureza humana);

(5) Pretexto de se tomar a existência como inspiração pra prosa ficcional.

Ora, ao contrário de excludentes “ous”, e unicamente afora, porventura, a última técnica, acreditamos nos “es” aditivos: bem poderiam se combinar fatos, conjuntura, criticidade e pitadas de psicologia.

Apenas aconselharíamos substituir-se a fantasia pelo estilo sóbrio, seguro, elegante, ensaístico, senhor, enfim, de personalidade.

Em livro já da madureza, “A vida de Eça de Queiroz” (1984), o biógrafo do Barão do Rio Branco (1845-1912), de Ruy Barbosa (1849-1923), Nabuco (1849-1910), Machado (1839-1908), Alencar (1829-1877) e Anísio Teixeira (1900-1971) quase condenará a imaginação quando do tentâmen de se reconstituir uma trajetória.

Se há vidas tão curiosas e perto de mágicas, por si mesmas dispensadoras das lucubrações, nenhum de nós, autores, estamos imunes de todo, porém, ao devaneio. (Inevitável, aliás, enamorarmo-nos um pouco dos nossos temas).

Longe estou, com tal assertiva, de defender, contudo, o sacrifício da honestidade ético-mental em favor da deturpação pelas conveniências pessoais (inclusive passionais).

A (ilusória) busca da “verdade” deve (ainda) guiar a sinceridade autoral, conquanto nem sempre consigamos escapar aos exageros, paradoxos, faltas, sentimentos, sereias, gostos, contumácias... nas construções do intelecto.

Relacionadas