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Um Senado kafkiano

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A semana iniciou com Sarney, o presidente do Senado, fazendo veemente pronunciamento, se dizendo vítima de injustificável perseguição, que não encontrava outro paralelo na história a não ser na obra O Processo de Franz Kafka. Referia-se às últimas denúncias de aquisição irregular de imóveis em São Paulo, quando, segundo ele, a situação era tão absurda que não existia outra definição que não fosse denominá-la kafkiana. Antes de ser adjetivo, Franz Kafka (1883-1924) era um judeu de Praga, nascido na inescapável tradição de fantasiosos contadores de histórias, habitantes do gueto e refugiados eternos. Sua Praga, a ?pequena mãe? com ?garras?, sufocava-o, mas mesmo assim ele escolheu viver toda a sua vida ali, com exceção dos oito meses finais. A presença do absurdo em Kafka não faz parte só de sua literatura. Na maior parte de sua vida imaginou a própria morte por dezenas de métodos cuidadosamente elaborados. Era possuído por um terror interno, que não o permitia ter uma visão do mundo discernível, nenhuma filosofia que o guiasse, somente lendas espantosas retiradas de um subconsciente extraordinário. Isto permitiu que ?açougueiros? da cultura moderna o transformassem em adjetivo. Nenhum autor de nossa época, e provavelmente nenhum desde Shakespeare, foi tão mal interpretado e ignorado. Jean Paul Sartre dizia que ele era existencialista; Camus o via como teórico do Absurdo; seu amigo de infância e editor, Max Brod, convenceu várias gerações de estudiosos de que suas parábolas eram parte de elaborada busca por um Deus inalcançável. As suas novelas O Processo e O Castelo tratavam da inacessibilidade das autoridades superiores, o termo ?kafkiano? associou-se à infraestrutura burocrática sem rosto que o muito eficiente Império Austro-Húngaro legou ao mundo ocidental. Resumindo, é um adjetivo que toma proporções quase míticas em nosso tempo, ignorando a intricada ironia judaica que se esconde no corpo da obra de Kafka. A semana no Senado termina de forma devastadoramente kafkiana: o PT, partido do presidente Lula, em decorrência do arquivamento das denúncias contra Sarney pela Comissão de Ética, esfacela-se eticamente, com a saída em protesto do senador Arns e a ameaça de renúncia pelo senador Mercadante, o mais votado do País. Sarney aproximou-se da verdade quando citou que a situação no Senado era absurdamente kafkiana; mas omitiu que o principal motivo é a sua permanência na presidência. (*) É médico e professor da Uncisal.

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